De olho em 2030, Tarcísio reluta em ajudar Flávio, enquanto Lula e PT fazem circular ideia de que candidatura em SP é apenas 'sacrifício' para dar palanque ao presidente
Beto Bombig
Durante mais de uma década, dizia-se entre políticos brasileiros que a oposição ao PT, encabeçada pelo PSDB, havia se especializado em perder eleições presidenciais, enquanto o PT havia se especializado em perder eleições para o Governo de São Paulo. A obstinação de ambos os lados da disputa em firmar essa máxima parecia ser tanta que muita gente importante chegou a suspeitar de um acordo tácito para manter esse status quo.
O acordo nunca escrito seria mais ou menos assim: vocês não nos incomodam para valer quando o assunto for Presidência, e nós não incomodamos vocês na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Dessa forma, tucanos e petistas sobreviveram escorados nessa "rivalidade", nos dois maiores orçamentos públicos da nação e em poderosas máquinas administrativas por quase duas décadas, se esforçando para cometer erros primários em campanhas e "cristianizar" candidatos.
Neste ano, uma versão 2.0 dessa "teoria da conspiração" começa a se espalhar por gabinetes, mesas de restaurante da zona oeste paulistana e escritórios da avenida Faria Lima: o Planalto ficará com o PT por mais quatro anos, enquanto o Bandeirantes permanecerá com os opositores do partido por mais quatro. Os grandes beneficiados por esse suposto arranjo atendem pelos nomes de Luiz Inácio Lula da Silva, que poderá disputar sua última eleição presidencial sem ter na urna aquele que o PT considera ser seu adversário mais difícil, e Tarcísio de Freitas (Republicanos), que assistirá no camarote a disputa nacional, resguardado para 2030.
Em privado, estrategistas da campanha de Lula reconhecem que Tarcísio seria, em termos políticos e institucionais, um obstáculo eleitoral mais difícil de ser transposto pelo presidente rumo ao quarto mandato. Mas, se Lula teme Tarcísio, o atual governador de São Paulo teme Geraldo Alckmin (PSB) e até Simone Tebet (MDB) quando o tema é sucessão no Palácio dos Bandeirantes.
Não por outro motivo, sempre que Tarcísio começa a se movimentar na direção de um projeto presidencial, o petista faz circular que lançará Alckmin ao Bandeirantes. O recado implícito do presidente é: se você deixar o governo para concorrer ao Planalto, coloco meu vice para complicar sua vida e a de seu grupo político em São Paulo.
Reservadamente, o entorno de Tarcísio entende que Alckmin, ex-governador por quatro mandatos, seria o candidato mais difícil de ser batido por qualquer nome escolhido por Tarcísio para sua sucessão. Depois dele, Tebet, ministra do Planejamento. A avaliação é de que ambos possuem mais condições de caminhar da esquerda rumo ao centro do eleitorado e furar a bolha esquerdista no estado.
Ou seja, a ameaça velada de Lula é: se escolher o voo presidencial, Tarcísio poderá acabar sem o Planalto e seu grupo sem o Bandeirantes. Não por outro motivo, agora que o atual governador vem dando sinais de que concorrerá à reeleição, o presidente intensificou as gestões para empurrar um desmotivado Fernando Haddad (PT), já derrotado por Tarcísio em 2022, para o "sacrifício". Na mesma sintonia, líderes petistas fazem circular a versão de que a "missão" de Haddad é dar um palanque forte a Lula e "perder por pouco".
Em tempos passados, o que alimentava a tese do acordo tácito era a insistência do PSDB em lançar candidaturas presidenciais que não uniam o próprio partido nem seus aliados na oposição. Há acusações até hoje insepultas de que Alckmin, então no PSDB, e Aécio Neves fizeram "corpo mole" quando o candidato tucano a presidente foi José Serra, em 2002 e 2010. De seu lado, o PT contribui com campanhas estaduais desconectadas da realidade dos paulistas, apostando no esquerdismo e no isolamento político, e também com largas doses de desunião interna.
Só para citar alguns exemplos a título de ilustração: em 2002, Serra, para além das questões internas do PSDB, concorreu ao Planalto sem o apoio de parte relevante do PFL após um desentendimento na pré-campanha entre os dois principais partidos que davam sustentação ao governo FHC (1995-2002); fora das fronteiras paulistas, o que dizer da vitoriosa chapa "Lulécio" (Lula para presidente e Aécio para o Governo de Minas) em 2006, quando Alckmin era o candidato a presidente?
Nesse mesmo 2006, o PT, após uma luta fratricida, lançou Aloizio Mercadante para o Governo de São Paulo quando Marta Suplicy era a candidata mais competitiva, capaz de ampliar os apoios rumo ao centro e com liderança expressiva entre os caciques petistas paulistas. E por aí vai, com campanhas repletas de suspeitas de "corpo mole" de aliados e cabos eleitorais que, antes de pensarem nos interesses comuns, estavam salvaguardando projetos eleitorais personalistas e alimentando a ideia de que parecia haver um jogo combinado entre petistas e seus opositores.
Alguma semelhança com o cenário atual? Exatos 20 anos depois do Lulécio e da derrota de Mercadante em primeiro turno para Serra, a oposição a Lula caminha desunida, com Flávio Bolsonaro (PL) na dianteira, para cometer erros semelhantes aos do PSDB, enquanto o PT, sob o pretexto apenas de "dar palanque ao presidente", aposta até agora em um hesitante Haddad como candidato ao Bandeirantes e com poucas chances de transpor a bolha da esquerda no estado.
Em privado, petistas torcem para Flávio Bolsonaro ser candidato a presidente. No Bandeirantes e na Prefeitura de São Paulo, a provável escolha de Haddad, por ora, não mete medo em ninguém. Assim, a turma da conspiração acredita que Tarcísio, de olho em 2030, fingirá fazer campanha pelo senador, e Lula simulará empenho total em eleger seu ministro da Fazenda, quando, na verdade, está mais preocupado mesmo em quantos votos ele conseguirá para sua reeleição no maior colégio eleitoral do país.
Veterano de outras batalhas, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) sentiu o cheiro de queimado e nesta quinta-feira (29/1) tentará, em visita programada na penitenciária onde se encontra encarcerado, enquadrar Tarcísio para que ele entre de corpo e alma na campanha de Flávio.
Não se trata de um movimento protocolar e muito menos desprezível. Afinal, foi Jair Bolsonaro quem, em 2018, acabou com a "insistência" da oposição de perder para o PT e acredita que Flávio repetirá sua façanha este ano. Da mesma forma, jamais poderá ser desconsiderada a possibilidade de Haddad derrotar Tarcísio. Nada disso, no entanto, dará certo se os dois lados da disputa insistirem nos erros do passado.
Rede de proteção
Agentes importantes do mercado financeiro procuraram Tarcísio de Freitas oferecendo a ele "posições futuras" em fundos de investimento caso ele decida concorrer ao Planalto e acabe derrotado por Lula. A ideia, claro, é estimular o governador de São Paulo a não desistir da disputa com Flávio Bolsonaro.Revanche histórica
Ronaldo Caiado (União Brasil) tem dito a aliados que gostaria de levar até o fim sua candidatura presidencial por se tratar de um "acerto de contas" com Lula, especialmente nos debates. Ambos se enfrentaram na eleição de 1989, as primeiras com voto direto dos brasileiros após a ditadura.logo-jotaJota
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