Michelle Bolsonaro, Silas Malafaia e Tarcísio de Freitas em ato pela anistia aos golpistas - Allison Sales - 7.set.25/Folhapress |
Malafaia expõe insatisfação de evangélicos com Flávio Bolsonaro

Malafaia expõe insatisfação de evangélicos com Flávio Bolsonaro

  • Pastor criticou a ideia de direita unir-se em torno de um só candidato
  • Para alguns pastores, escolha de Flávio revela uso explícito da fé com fins políticos

Juliano Spyer

O impensável aconteceu. O pastor Silas Malafaia anunciou que pode não apoiar Flávio Bolsonaro na eleição presidencial deste ano. Em vídeo publicado na semana passada, criticou a ideia de que a direita deveria se unir em torno de um único representante.

"Se a direita tiver um só candidato, eu vou apoiar. Se tiver mais de um, aquele que eu achar que tiver mais chance eu vou apoiar", afirmou.

Malafaia diz indiretamente que a candidatura de Flávio serve aos interesses do clã Bolsonaro, não aos da direita. O senador não teria o carisma do pai, mas herdaria sua rejeição entre eleitores de centro -um segmento que, segundo o pastor, votaria em Tarcísio de Freitas.

A decisão de escalar a queda de braço com Flávio não é impulsiva. Lideranças cristãs conservadoras preferem se associar a outro nome.

A pré-candidatura de Flávio simboliza, para muitos pastores, o uso mais explícito da fé com fins políticos. Até a publicação deste artigo, o site do senador não menciona prática religiosa, mas, na semana passada, ele foi batizado pela segunda vez no rio Jordão.

O senador também errou ao se aproximar do pastor André Valadão, líder da Lagoinha Church. Valadão encarna um modelo de empresário da fé criticado por setores tradicionalistas, por ser orientado pelo dinheiro e por transformar a fé em espetáculo, com o cristianismo em segundo plano.

O movimento de Flávio ocorreu no pior momento. O nome da Lagoinha passou a circular no noticiário em razão dos escândalos envolvendo o Banco Master e a CPMI do INSS. Dois dos personagens centrais nesses episódios -Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro- mantêm vínculos antigos com a denominação e prosperaram junto com ela.

Ao se pronunciar sobre os casos, Valadão negou qualquer relação entre sua fintech, a Clava Forte, e o Banco Master. Mas admitiu que há um membro da igreja mencionado pela CPMI do INSS "com motivos para ser investigado".

Três pessoas vestindo roupas brancas realizam batismo em rio. Dois homens seguram um terceiro homem na água, que aparece sendo imerso. Em outra imagem, homem recém-batizado segura toalha em área externa com árvores e construções ao fundo.
Flávio Bolsonaro é batizado no rio Jordão - Flávio Bolsonaro no Instagram

Ele possivelmente se referia a Felipe Macedo Gomes, ex-presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios, acusada de fazer descontos indevidos a aposentados. Gomes compareceu perante a CPMI, mas ficou calado, amparado por habeas corpus concedido pelo ministro Dias Toffoli.

Preso preventivamente ao tentar embarcar para o exterior, Fabiano Zettel liderava a Lagoinha Belvedere, um templo de luxo. Foi um dos maiores doadores individuais às campanhas de Tarcísio e Bolsonaro em 2022 e comandava a gestora de investimentos Reag, que, em 2021, comprou parte do resort Tayayá, pertencente aos irmãos de Dias Toffoli.

Flávio procurou a Lagoinha ao querer impor sua vontade aos dois principais articuladores do bolsonarismo nas igrejas. A resistência de Malafaia e de Michelle em apoiá-lo abriu espaço para que outros líderes cristãos sigam evitando um posicionamento público sobre a eleição presidencial.

Antes de anunciar sua pré-candidatura, Flávio avisou Tarcísio, mas não se deu ao trabalho de falar com Michelle. Ele resiste a admitir que a jovem bonita, de origem modesta, que se casou com seu pai, se tornou uma liderança nacional -independentemente do marido. Diferente dele.

Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliano-spyer/2026/01/malafaia-expoe-insatisfacao-de-evangelicos-com-flavio-bolsonaro.shtml