Presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad - Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo |
Visto como plano A para disputar governo de São Paulo, governo aumenta pressão sobre Haddad

Visto como plano A para disputar governo de São Paulo, governo aumenta pressão sobre Haddad

Preocupação do Palácio do Planalto é que presidente fique com um palanque frágil no estado, o que poderia atrapalhar a candidatura à reeleição


Por Jeniffer Gularte, Victoria Azevedo e Sérgio Roxo - Brasília

Embora já tenha dito publicamente em mais de uma ocasião que não deseja ser candidato nas eleições em 2026, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é o único plano do PT para a disputa do governo de São Paulo. Ao elevar a pressão, lideranças do partido dizem que o chefe da equipe econômica deverá encabeçar o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no maior colégio eleitoral do país.

Dirigentes da legenda afirmam que trabalham só com o nome de Haddad no estado e que, apesar da contrariedade do ministro, Lula tem avançado no processo de convencimento para que ele encare a campanha para o mesmo cargo que disputou em 2022. Procurado, Haddad não se manifestou.

A preocupação do Palácio do Planalto é que Lula fique com um palanque frágil no estado, o que poderia atrapalhar a candidatura à reeleição. Há uma avaliação no PT de que o desempenho de Haddad em 2022 foi determinante para a vitória de Lula na disputa contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Diante desse cenário, o partido quer manter em São Paulo o patamar de votação semelhante ao alcançado na disputa entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Haddad em 2022, quando o atual governador venceu por 55,27% dos votos válidos, contra 44,73% do hoje ministro da Fazenda. Já Lula teve 44,76% dos votos no estado no segundo turno contra Bolsonaro. Além disso, na última eleição, o presidente fez 4,3 milhões de votos a mais em São Paulo do que Haddad em 2018, quando o auxiliar concorreu à Presidência.

Histórico de votações em São Paulo - Foto: Editoria de Arte

Sem "riscos"

Mesmo considerada remota a possibilidade de derrotar Tarcísio, a leitura é que é preciso um palanque robusto para evitar cenários em que o atual governador seja reeleito em primeiro turno ou abra grande margem de votos. O entendimento é que esse cenário prejudicaria o chefe do Executivo nacionalmente.

Um interlocutor do petista afirma, sob reserva, que o presidente não quer correr riscos nessa eleição e deverá escalar ministros com força política para missões em cada estado, sobretudo em regiões consideradas estratégicas. A ideia, diz esse interlocutor, é que Lula tenha um "banco de reservas" com aliados à disposição para disputar a eleição se necessário.

Nos diferentes cenários que são discutidos por aliados de Lula para a montagem da chapa completa em São Paulo, além do nome de Haddad, são lembrados os ministros Simone Tebet (Planejamento), Marina Silva (Meio Ambiente), Márcio França (Empreendedorismo) e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Nas discussões são exploradas possibilidades para todas as vagas: governador, vice e as duas cadeiras para o Senado, além das suplências.

Um auxiliar de Lula diz que, além da densidade eleitoral de São Paulo, o estado passou a ganhar mais relevância nos planos da esquerda diante da falta de palanque robusto em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país. O petista trabalha para que o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) seja candidato em Minas, mas o parlamentar ainda resiste e não há um nome forte da sigla para disputar o pleito.

Esse aliado diz que é preciso testar os nomes à disposição do presidente e afirma que caberá a Lula dar a palavra final da montagem da chapa. Ele afirma que, neste momento, o presidente está ganhando tempo enquanto busca convencer Haddad. Além disso, diz que há uma preocupação também do risco de os votos da esquerda ficarem divididos em mais de um candidato, o que favorece a direita.

No cálculo de petistas, a suplência das vagas ao Senado também ganha importância, já que, num eventual governo Lula 4, os eleitos ao Senado poderão ser ministros, abrindo espaço para os suplentes.

Esse aliado de Lula afirma também que a saída de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) da disputa ao Senado no estado dá maiores condições para que o Planalto consiga eleger um aliado nessa posição, considerada estratégica. Isso porque o bolsonarismo está investindo na eleição ao Senado e busca a maioria na Casa.

Haddad tem afirmado que deseja participar da coordenação da campanha à reeleição e da elaboração do programa de governo. Petistas próximos a Lula afirmam que o presidente não assumirá a postura de forçar uma ou outra opção, mas tem atuado no processo de convencimento. Também pontuam que o passar dos meses e a proximidade do pleito contarão a favor dos planos de Lula. O presidente e o ministro mantêm conversas frequentes sobre a eleição.

O ministro já manifestou que gostaria de deixar a Fazenda em janeiro, mas pode ficar mais tempo no cargo e participar de uma viagem de Lula para a Índia depois do Carnaval. Ainda não há confirmação de que ele participará dessa agenda internacional.

Além de Haddad, outros ministros e autoridades do governo foram convidados por Lula para acompanhá-lo na viagem. Um deles é Márcio França, que já foi governador de SP e se colocou à disposição para disputar o cargo neste ano. França conta com apoio de seu partido, o PSB. Defensores do nome dele dizem que o ministro consegue atrair segmentos que a esquerda tem dificuldade no diálogo, a exemplo de policiais.

Auxiliares dizem que, nessas viagens de avião, Lula costuma chamar aliados para conversar sobre temas que julga essenciais, como o cenário eleitoral em São Paulo.

Já nesta semana, o presidente terá a companhia de Tebet na viagem que fará ao Panamá, e há uma expectativa de que ela seja chamada pelo petista durante o voo para discutir o seu destino na eleição de outubro. A ministra analisa um convite do PSB para mudar de partido e seu domicílio eleitoral, já que pelo MDB é improvável uma candidatura em São Paulo associada a Lula, pela proximidade da legenda no estado com Tarcísio.

Em entrevista ao GLOBO, o ministro da Educação, Camilo Santana (PT-CE), cobrou Haddad a entrar na disputa em São Paulo:

- Haddad representa algo muito maior. Ele não pode se dar ao luxo de querer tomar uma decisão individual. Ele faz parte de um projeto de Brasil, que é liderado hoje pelo presidente Lula. A gente precisa cumprir missões que muitas vezes, pessoalmente, a gente não queira.

O tom usado por Camilo agradou ao PT, mas contrariou o que Haddad já vinha manifestando e reiterou há uma semana em entrevista à jornalista Míriam Leitão na GloboNews. Na ocasião, o ministro da Fazenda afirmou que estava fora dos seus planos concorrer em 2026, mas reconheceu que pode ser chamado a reavaliar a situação.

- Não tenho nenhum problema em conversar com o PT nem com o presidente - afirmou.

Projeto nacional

Diante do cenário embaralhado em São Paulo, Camilo argumentou que Haddad é parte de um "projeto nacional liderado por Lula" e que não é questão de "querer ou não querer".

- Haddad cumpriu um papel importante em 2022 - disse Camilo. - É questão de missão. Não é querer ou não querer. Muitas vezes precisamos nos colocar à disposição em nome do projeto nacional, independentemente se vamos ser vitoriosos ou não.

O vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, também é lembrado como uma possibilidade para reforçar o palanque em São Paulo. Apesar de elogiar o trabalho de Alckmin na Vice-Presidência, uma parte dos aliados de Lula defende que ele seja candidato ao Palácio dos Bandeirantes, caso Haddad concorra a uma vaga ao Senado.

Alckmin tem afirmado a aliados, no entanto, que não tem pretensões de disputar vaga nem ao Senado nem ao governo. Esse movimento é defendido por governistas num cenário em que a vice pudesse ser oferecida a um partido de centro, com o compromisso de que essa sigla caminharia com Lula nacionalmente, cenário considerado remoto.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/01/27/visto-como-plano-a-para-disputar-governo-de-sao-paulo-governo-aumenta-pressao-sobre-haddad.ghtml