A adaptação de infraestrutura demandará investimentos de R$ 9 bilhões a R$ 11 bilhões, nos próximos 15 ano, estima Abert
Por Marlla Sabino, Sofia Aguiar e Daniela Braun - De Brasília e São Paulo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro das Comunicações, Frederico Siqueira, assinaram ontem (27) o decreto que implementa a nova geração da televisão aberta no Brasil, a TV 3.0. A assinatura ocorreu em evento no Palácio do Planalto, em Brasília.
O governo trabalha com a meta de que o novo sistema já esteja disponível, para uma parte da população, em junho de 2026, quando começa a Copa do Mundo. Inicialmente, as grandes capitais devem receber a nova tecnologia - a cobertura de todo o território nacional deve levar até 15 anos, estima o Executivo. A nova tecnologia é posta pelo governo como uma revolução na forma de se ver TV: haverá qualidade superior de som e imagem e maior integração com a internet, propiciando mais interartividade.
A TV 3.0 é a primeira evolução do serviço público de TV desde 2007, quando começou a ser transmitido o sinal digital. Pelo novo sistema, a população acessará os canais por meio de aplicativos e poderá, por exemplo, comprar produtos mostrados nos programas que está assistindo.
O sistema é visto como uma oportunidade para fomentar o mercado publicitário. Será possível, por exemplo, oferecer anúncios segmentados, de acordo com o telespectador e a sua região.
Com a assinatura do decreto, as empresas de radiodifusão precisam providenciar mudanças em seus sistemas de produção e transmissão. Fabricantes de TV devem iniciar processos de pesquisa para desenvolver aparelhos receptores.
Os usuários da TV 2.0 (atual sistema de TV digital) poderão continuar usando seus aparelhos para usufruir do serviço de radiodifusão disponível e podem migrar, quando quiserem, para a nova geração, segundo o governo federal.
A implementação será gratuita, com período de convivência entre as duas tecnologias: TV digital e TV 3.0"
- Frederico Siqueira
Siqueira ressaltou que a TV seguirá aberta e gratuita, mas, com conexão à internet, será uma nova experiência. A população, disse, não terá que descartar os aparelhos de TV atuais para acessar a nova tecnologia, mas será necessário ter conversores para adaptação às novas funções.
"Ninguém precisará trocar a televisão de uma hora para outra. A implementação será gratuita, com período de convivência entre as duas tecnologias: TV digital e TV 3.0, por dez a quinze anos, mas esse período poderá ser prorrogado de acordo com a necessidade de evolução do projeto. Será uma migração escalonada a partir das grandes capitais."
O ministro afirmou que, em um primeiro momento, não há necessidade de se viabilizar uma política pública de distribuição conversores ao novo padrão tecnológico, uma vez que as tecnologias vão funcionar em paralelo, mas admitiu que a distribuição pode ser uma possibilidade no futuro.
Questionado após o evento, o ministro disse que o governo ainda discute possíveis linhas de financiamento para emissoras interessadas em aderir à TV 3.0.
A adaptação de infraestrutura necessária para a transmissão da programação pela TV 3.0 demandará investimentos de R$ 9 bilhões a R$ 11 bilhões nos próximos 15 anos, estima o presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Flávio Lara Resende.
Na semana passada Resende reuniu-se com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante. Saiu da conversa, disse ao Valor, com a promessa de uma linha de crédito às radiofusoras na migração à TV 3.0 A migração para o padrão de TV interativo, também conhecido como DTV+, exige investimentos tanto em produção de conteúdo, como em tecnologias de captação e transmissão audiovisual. "É muito importante que emissoras tenham acesso a linhas de crédito para essa migração", disse Resende.
O Valor apurou que o BNDES estuda a possibilidade de financiar a TV 3.0 em uma iniciativa que contemple todo o setor. Na reunião da semana passada com a Abert, o banco recebeu uma proposta da entidade. O alcance de eventuais medidas de crédito seria algo "específico e focado", disseram interlocutores a par do tema. O foco estaria em medidas que contemplem, sobretudo, inovação, tecnologia e compra de equipamentos. O banco deve fazer uma análise de demanda sobre a TV 3.0 e avaliar a necessidade de garantias firmes atreladas aos financiamentos.
Segundo Resende, será necessária uma nova linha de televisores compatíveis com a tecnologia "multiple input, multiple outputs" (Mimo), usada em antenas para comunicação sem fio em celulares, roteadores e notebooks.
O presidente da Abert explica que a migração para a TV 3.0 não interfere na transmissão de TV digital aberta. "Como é uma oferta opcional e não compulsória, como ocorreu caso da migração do sinal analógico para o digital, a previsão é de que as 125.500 outorgas de retransmissão do Brasil estejam migradas para a TV 3.0 em 15 anos", explica Resende.
De olho em novos fabricantes, o governo federal diz que, com a nova tecnologia, já há interesse de novos fabricantes, especialmente chineses, para ofertar novas TVs e caixinhas conversoras. Segundo um documento do Palácio do Planalto distribuído à imprensa, a principal é a chinesa Hisense, "que inclusive já estaria disposta a ter equipamentos para o próximo ano com a nova tecnologia".
Paralelamente, em março de 2026 o Brasil contará com 3 mil amostras de conversores portáteis para testar a recepção do sinal da TV 3.0 em aparelhos de televisão, informou o executivo-chefe (CEO) da Seja Digital, Antonio Martelletto, ao Valor .
A assinatura do decreto da TV 3.0 "traz credibilidade para que a indústria embarque nesse padrão", avalia o CEO da empresa privada sem fins lucrativos responsável pela implementação de políticas públicas em radiofusão e telecomunicação no país. Entre os fornecedores dos chips para conversão está a japonesa Sony, diz Martelletto.
A Seja Digital conta com um orçamento de R$ 87 milhões para coordenar testes de implantação da TV 3.0 no país - saldo rede projetos anteriores mantidos com investimentos de operadoras de telecomunicações - em parceria com o Fórum do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD). Após a inauguração de duas torres de transmissão da TV 3.0, em São Paulo, o projeto prevê outras duas estações de transmissão segmentadas em São Paulo, que retransmitirão "conteúdos diferentes para as experiências de segmentação da TV 3.0" e a instalação de uma torre de transmissão de TV 3.0 em Brasília, em uma emissora pública.
O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, que participou do evento ontem em Brasília, disse que as tecnologias envolvidas na TV 3.0 foram desenvolvidas por países como Estados Unidos, China, Japão, Índia, além do próprio Brasil. (Colaborou Francisco Góes, do Rio de Janeiro)
Valor
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/08/28/a-tv-3-0-deve-fazer-sua-estreia-na-copa-do-mundo.ghtml