Fundador do instituto de pesquisa Ideia diz que Lula tem números de reeleição 'frágeis' e que 'antipetismo de chegada' pode beneficiar candidato do PL
Por Bianca Gomes
O economista Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia, avalia que a disputa presidencial deste ano poderá terminar já no primeiro turno. E, para ele, não será uma surpresa se o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) for o vencedor.
Em entrevista ao Estadão, Moura, que é professor da Universidade George Washington e sócio do fundo Zaftra - primeira aplicação do mundo voltada a investimentos com base eventos eleitorais -, diz que uma combinação de três fatores pode levar a uma decisão no primeiro turno.
De um lado, Lula está pela primeira vez sozinho na raia da esquerda, e a tendência é que sua intenção de voto se aproxime da aprovação de seu governo, que ficou em 46,5% na última pesquisa do instituto. De outro, Flávio pode se beneficiar do fenômeno que Moura apelidou de "antipetismo de chegada", em que eleitores deixam de lado candidatos de sua preferência no primeiro turno para votar naquele que consideram ter melhores condições de derrotar o PT. Segundo o especialista, esse é um movimento difícil de as pesquisas captarem.
Um terceiro fator que pode contribuir para uma liquidação antecipada da disputa é o aumento da abstenção e dos votos em branco e nulos, impulsionada pelo desengajamento do eleitorado.
"Eu comecei a cobrir a eleição presidencial profissionalmente em 1998. Essa é disparada a eleição com o menor grau de engajamento. As pessoas estão com uma energia muito baixa em relação a votar numa continuidade do presidente Lula e votar numa mudança do Flávio. E também não enxergam uma terceira alternativa viável", diz ele, acrescentando que há um "clima de conformismo" no País.
Em uma conversa de quase uma hora, cuja íntegra está disponível, Moura disse que os números de Lula são frágeis para uma reeleição: o presidente tem metade da população que desaprova seu governo e não dispõe da "gordura" para compensar o efeito da abstenção, que, segundo o economista, atinge principalmente eleitores de baixa renda e escolaridade, mais identificados com o PT. Para Moura, que acompanha as eleições brasileiras há quase 30 anos, "é a primeira vez que o PT vai para uma eleição sem um argumento econômico forte". Pelo contrário, diz, o partido chega às urnas com boa parte do País endividada.
Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Qual a sua avaliação sobre o cenário eleitoral deste ano?
Essa é uma eleição de oposição sem oposição. Os números de reeleição do presidente Lula são muito frágeis. Ele tem metade do País que desaprova seu governo e diz que ele não merece continuar. Ele tem um (porcentual de) ótimo e bom bem abaixo dos 40% - a presidente Dilma, que teve a reeleição mais difícil, a essa altura já tinha 45% de ótimo e bom. Hoje, dependendo da pesquisa, o presidente oscila entre 35% e 36%. No Ideia, a gente sempre pergunta em quem as pessoas votaram no segundo turno de 2022. E quem votou em Jair Bolsonaro nunca aprovou esse governo. Então, Lula tem um teto de popularidade muito baixo. O segundo ponto é que o PT sempre tem um problema com o perfil de abstenção no Brasil. Os 20% que não aparecem para votar são pessoas de baixa renda e baixa escolaridade, o que afeta mais o perfil de eleitor do presidente do que da oposição. Lula está com números frágeis e não tem a gordura necessária para compensar o efeito de abstenção.
Do outro lado, por que eu falo que é uma eleição sem oposição? Quando você tem um governo mal avaliado, a melhor maneira de ganhar uma eleição é ter um candidato com rejeição baixa. Quando Joe Biden ganhou de Trump em 2020, o governo Trump era mal avaliado e Biden, uma figura menos rejeitada, por exemplo, que Hillary Clinton e Bernie Sanders. É uma equação meio óbvia: você escolhe alguém com um grau de conhecimento alto, mas com baixa rejeição. A oposição brasileira hoje tem, no Flávio Bolsonaro, que é o candidato melhor posicionado, um cara de alta rejeição. Isso faz essa eleição ser mais disputada do que os números de eventual alternância de poder mostram.
E um dos motivos - e eu falo isso no exterior, quando me perguntam por que a oposição do Brasil não está melhor posicionada para ganhar a eleição se os números de reeleição são bastante frágeis - é que, no Brasil, tem uma disputa muito maior em eleger deputados federais - para acesso ao fundo partidário e eleitoral, às emendas parlamentares e ao próprio poder do Congresso - do que para a presidência. A disputa da presidência quase que é coadjuvante para os presidentes de partidos e partidos. Tanto que temos só uma chapa coligada, a do PT, as outras são puras.
E como o mercado financeiro está olhando para essa eleição?
Tem uma diferença entre o mercado local e o mercado internacional que é importante fazer. No mercado local, há uma visão muito pessimista em relação à capacidade de um eventual governo Lula fazer uma reforma fiscal. Não existe também uma alta confiança de que um eventual governo Flávio faça essa reforma, mas, pelo menos, ele vai ter o benefício da dúvida. Se o Lula ganhar, provavelmente vamos ter o dólar subindo e eventualmente uma pressão na bolsa e na curva de juros futuros. Se o Flávio ganhar, vai ter esse benefício da dúvida e potencialmente podemos ter um aumento da bolsa e o dólar caindo um pouco - inclusive, neste momento, o mercado está incorporando o maior favoritismo do Flávio e já está tendo um efeito no dólar e na bolsa agora. Obviamente, isso tudo no pós-eleição; quando o governo começar, aí vai ser tudo em função das medidas que um governo Flávio ou governo Lula 4 vão adotar. Mas entre a eleição e o novo governo há diferentes expectativas.
Agora, é importante dizer também que lá fora não tem um pessimismo tão grande em relação ao governo PT, muito pelo contrário. Os investidores estrangeiros olham o Brasil como politicamente mais estável do que os países emergentes que hoje estão em crise, como a Turquia, a Argentina, a África do Sul e o México. O Brasil dá um certo conforto de estabilidade política em relação aos pares emergentes. E tem-se uma visão do investidor lá fora de que o Lula é um político pragmático. E também os investidores estrangeiros chegaram à conclusão de que o Congresso aqui tem um poder muito forte de contenção. Se é um presidente direito ou um presidente de esquerda, o Congresso meio que baliza os rumos da nação. O estrangeiro está muito calmo em relação a essa eleição, independente do resultado, e os brasileiros têm aqui no mercado local uma dicotomia de se ganhar um lado ou se ganhar o outro.
São visões opostas então?
Sim. A visão que o mundo tem do Lula é mais pragmática em relação à política econômica, em relação a posturas, e a visão aqui é mais polarizada.
O sr. falou que o mercado já está incorporando um favoritismo do Flávio. Isso mudou nos últimos dias?
Mudou nos últimos dias. Tem dois indicadores muito óbvios. O primeiro é que a gente está vendo uma apreciação do real. Mesmo com o preço do barril batendo a US$ 100 por causa do conflito do Irã, a bolsa brasileira está andando. Claro que isso muda de acordo com os eventos que podem aparecer na campanha, mas o favoritismo do Flávio já antecipa um otimismo do mercado.

Lula e Flávio Bolsonaro durante os comícios no primeiro dia da campanha eleitoral Foto: Wilton Junior/Estadão e Pedro Kirilos/Estadão
O Renan Santos disse, em entrevista ao 'Estadão', que o Brasil vive um cenário de forte despolitização e que essa é a eleição mais desengajada dos últimos tempos. Você concorda?
Eu comecei a cobrir a eleição presidencial profissionalmente em 1998. Essa é disparada a eleição com o menor grau de engajamento. As pessoas estão com uma energia muito baixa em relação a votar numa continuidade do presidente Lula e votar numa mudança do Flávio. E também não enxergam uma terceira alternativa viável. Nas eleições presidenciais brasileiras depois da ditadura, tiveram dois elementos de vitória muito claros. Um deles são as propostas de esperança em relação à economia. O Fernando Henrique ganhou duas eleições como defensor do País em relação à inflação. Em 2002, o Lula falava que iria gerar 10 milhões de empregos. Em 2006, o PT vendeu uma escala dos programas sociais, especialmente do Bolsa Família. Em 2010, havia o argumento de que era o momento de o País crescer economicamente; o PT criou o programa de aceleração do crescimento e colocaram a Dilma como a mãe do PAC. Em 2014, apesar de ter uma crise econômica contratada, tinha-se a visão de que o desemprego estava baixo - e estava mesmo - e de que votar no PSDB seria retroceder nos programas sociais. Em 2022, o Lula usou o argumento de mudança de status: de que as pessoas voltariam a consumir picanha, churrasco e cerveja - o que, de qualquer maneira, era um argumento de esperança.
Agora, nessa eleição, o governo não tem esse argumento de esperança econômica. Muito pelo contrário, estamos vivendo uma eleição de pessoas altamente endividadas. E é muito sui generis, porque não há um problema de falta de trabalho no País, de desemprego estrutural, como em várias eleições na Europa. As pessoas estão trabalhando, às vezes têm até mais de uma atividade geradora de renda, mas não conseguem fechar o mês por conta de um nível de endividamento enorme. É uma conjunção de custo da dívida muito alto - no Brasil é caro você, como pessoa física, tomar empréstimo - e falta de educação financeira básica. E obviamente, teve um tsunami de bets. As pessoas hoje usam bets como potencial mecanismo para pagar dívida, acham que são uma fonte de renda complementar e até investimento. Então, estamos vivendo uma eleição de pessoas endividadas e o governo não tem um argumento de que a vida vai melhorar.
Ele tem paliativos: mudou a tabela do Imposto de Renda, criou o Desenrola, tirou a taxa das blusinhas, tem a expectativa (de acabar com a escala) 6 por 1. Mas, é supercruel: quando a gente pergunta o que a pessoa vai fazer com esse dia a mais, a maioria diz que vai trabalhar para gerar renda e pagar as contas. Então, é a primeira vez que o PT vai para uma eleição sem um argumento econômico forte. E, do lado da oposição, a mesma coisa. A oposição não conseguiu traduzir para as pessoas o que vai fazer de diferente para melhorar a vida delas do ponto de vista do endividamento. Eu me lembro que, em 2014, quando a gente fazia grupo (de pesquisa) com Aécio Neves e Dilma, uma das dificuldades das pessoas era dizer o que o Aécio ia fazer de diferente na economia em relação à Dilma. Por isso ele perdeu. Não bastava dizer que ele ia tirar o PT; faltou esse argumento. E eu vejo que a oposição hoje patina de um argumento além de 'vou tirar o PT e a economia vai melhorar'. (...) Essa eleição de 2026 não entusiasma nem no lado econômico, nem na volta de um status de vida melhor. Isso o PT fez muito bem. Eu não estou entrando no mérito de se é verdade ou não, mas as campanhas do PT e o próprio Lula sempre traduziram melhor a mudança de status das pessoas: as pessoas não comiam, passaram a comer; não andavam de avião, passaram a andar de avião; não frequentavam universidade, passaram a frequentar a universidade.
Em 2022, fizeram o argumento: as pessoas estavam comendo pior e passariam a comer melhor. Só que eles não entregaram isso. Eu sempre digo que o brasileiro, dos lugares que eu faço pesquisa no mundo, é um dos que mais curte status. Tanto é que eu brinco que o brasileiro adora uma pulseirinha VIP, porque é um símbolo de status. E esse governo não entregou isso (mudança de status), e a oposição não tem uma oferta de esperança. (...) Outro mecanismo de vitória presidencial foi o combate à corrupção. Em 1989, o Collor ganhou a eleição com uma bandeira muito clara: era o caçador de marajás. Em 2018, o Bolsonaro ganhou uma eleição surfando na Lava Jato, no sistema político corrompido. (...) Tudo o que está acontecendo agora faz com que, no imaginário do eleitor, seja todo mundo igual. Todo mundo é corrupto, todo mundo está envolvido com o Vorcaro, todo mundo está envolvido com o Banco Master. Estamos em um nível de desengajamento porque as pessoas não têm esperança em relação à economia e não têm esperança de que o eleito seja minimamente ético ou que trate o tema da corrupção de maneira mínima. Vivemos um desencanto que eu não tinha visto ainda.
O que vai, então, definir essa eleição?
Eleições de baixo engajamento - isso não só aqui, mas em qualquer lugar do mundo - são definidas pela capacidade de mobilização das bases. A campanha hoje tem que conseguir fazer com que as pessoas que, de alguma maneira, gostam de você, ou pelo menos odeiam o outro lado, apareçam para votar. Eu acho que o PT tem um desafio enorme de tentar minimizar a abstenção no Nordeste, porque, de alguma maneira, segue sendo a fortaleza do Lula. E a oposição tem um desafio de remobilizar os votos no Sudeste que foram decisivos para o Bolsonaro perder em 2022. Inclusive, no caso do Bolsonaro, entra (conquistar) o eleitorado feminino do Sudeste de baixa renda. Mas eu estou muito atento também a uma coisa que recorrentemente ocorre em eleições de baixo engajamento: o aumento de abstenção e dos votos branco e nulo. Geralmente, quando as pessoas estão muito desengajadas, aumenta muito o branco, nulo e a abstenção. Em 2016, o Doria ganhou a eleição no primeiro turno não porque foi uma grande ultrapassagem, mas porque a periferia de São Paulo, que sempre elegeu governos do PT na cidade, tinha um grau de decepção enorme com a gestão do Haddad e basicamente não votou. Quem ganhou a eleição em 2016 foi branco, nulo e abstenção.
Então, eu preciso estar muito atento a esse debate porque o aumento de um, dois pontos porcentuais de branco e nulo e abstenção faz uma diferença enorme na equação de votos válidos. Outra questão é que, nas eleições pelo mundo, estou vendo os jovens cada vez mais engajados em votar. Mas quando a gente fez a pesquisa aqui no Brasil, a juventude está totalmente desengajada. A juventude não se vê representada por esse governo, não gosta de ninguém da oposição - o fenômeno Renan Santos é muito segmentado, tem apelo entre homens de alta renda, não é um movimento. Esse ano, inclusive, foi o menor número de registro de jovens de 16 a 18 anos para votar. E eu acho que isso pode ter uma implicação prática, de a gente ter um não-voto maior do que nos anos anteriores.
E o não-voto, de modo geral, prejudica mais o PT ou o que prejudica mais o PT é aquele eleitor que não vai votar?
Não, geralmente o que prejudica mais o PT é o eleitor que não vai votar. Porque, justamente, é o eleitor de baixa renda.
Branco e nulo é uma loteria?
É.
O sr. falou sobre os jovens. Em anos anteriores, o Lula tinha um desempenho acima da média entre os jovens e agora isso mudou.
Sim, inclusive é interessante. Foram os jovens que garantiram a ida dele ao segundo turno contra o Brizola, em 89. Os jovens eram uma fortaleza dele em relação ao Fernando Henrique. O Fernando Henrique ganhou duas eleições no primeiro turno, mas o Lula ganhava entre os jovens. Quando eu falo jovens, é até os 25 anos. Em 2002, o jovem foi fundamental... Então, sempre foi uma fortaleza do PT e sempre foi uma fortaleza do Lula. E agora, claramente, tem um freio de arrumação, um desestímulo desses grupos se engajarem na campanha do PT.
E tem um motivo específico?
Esse ano vamos ter gente votando que nasceu em 2010. E que já nasceu com o Lula fora da Presidência. Então, não encontrou o País anterior, que, bem ou mal, evoluiu muito em vários indicadores - de educação, saúde, saneamento. Ainda tem muito o que fazer? Tem. Mas o histórico brasileiro é muito positivo. A gente tem toda uma geração que não viveu a inflação. Então, a perspectiva é outra. E também é importante dizer que os jovens brasileiros também são mais conservadores. Temos hoje, do ponto de vista demográfico, mais jovens evangélicos, mais jovens cristãos. Porque, inclusive, os casais evangélicos têm filhos mais cedo. Ou seja, também mudou um pouco o perfil da juventude. Não temos uma migração em massa do campo para as grandes cidades. Hoje, as cidades pequenas e médias, principalmente as cidades pequenas e médias que vivem da riqueza do agronegócio, não têm esse processo migratório. Então, obviamente, a dinâmica de valores é outra. Toda essa combinação de fatores faz com que a gente não tenha o perfil que a gente tinha da juventude nos anos 80 e nos anos 90.
Alguns estudiosos de opinião pública dizem que há 2% ou 3% do eleitorado que vai decidir a eleição. Tem isso mesmo, Maurício? Quem são? Onde vivem?
Esse governo perdeu de 3 a 4 pontos porcentuais de gente que votou no Lula em 2022 e já votou no Bolsonaro, e eu acredito que esse público vai decidir a eleição. Ou seja, são pessoas que podem transitar entre os dois grupos políticos e que hoje não estão seguras que o governo merece continuar, mas também têm uma memória negativa dos anos do Bolsonaro, principalmente na gestão da pandemia. Esse público ganha de 2 a 5 salários mínimos, tem mais mulheres, empreendedoras, são pessoas apolíticas, estão fora das bolhas. Muitas têm uma jornada de 15h, 16h por dia, que não dá tempo de se engajar, de acompanhar Banco Master, STF... E elas tomam a decisão (sobre o voto) muito próximo da eleição. Esse grupo está em aberto, estamos falando de 5 milhões de votos - lembrando que a última eleição foi decidida por muito menos.
Esse grupo está no Sudeste?
Sudeste, principalmente nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Foram decisivas para a derrota de Bolsonaro em 2022.
Quais movimentos podem acontecer na reta final da eleição?
Do lado do presidente Lula, é possível uma convergência entre o nível de aprovação do governo e a intenção de voto dele, porque hoje a intenção de voto do Lula na maioria das pesquisas está abaixo da aprovação do governo dele. Como não tem alternativa na esquerda, o Lula basicamente está sozinho nesse campo - que é uma coisa, inclusive, rara; nas outras eleições, sempre tinha um outro candidato nesse campo. Acho que é possível que o Lula feche esse gap. Outro movimento, aí com uma probabilidade inclusive maior, é o que eu chamo de "antipetismo de chegada": as pessoas largarem os candidatos de alguma preferência no primeiro turno e votar naquele candidato que tem melhor condição de ganhar do PT já no primeiro turno. Muita gente chama de voto útil, mas eu chamo de antipetismo de chegada porque a visão é: "eu gosto do fulaninho, por exemplo, eu gostava do Alckmin em 2018, mas eu votei no Bolsonaro para tirar o PT". E eu acho que o Flávio pode se beneficiar muito desse antipetismo de chegada, que é uma coisa muito difícil de pegar nas pesquisas. E eu estou vendo uma perspectiva disso acontecer de novo. E o terceiro movimento, que esse é mais complexo de pegar, é justamente esse não-voto. Se as pessoas vão ficar tão tristes com as opções e acabar anulando o voto, votando em branco ou não aparecendo para votar. E eu acho que isso, nesse ano, tem um potencial de ser relevante. Mexe muito na equação de voto válido.
Se o Lula se aproximar da aprovação e a gente tiver a desidratação dos candidatos da direita, temos um cenário de definição no primeiro turno?
Estou totalmente contra a corrente. Eu acredito que o cenário de primeiro turno não é um cenário improvável. É um cenário provável. Claro que tem uma probabilidade alta também de ter um segundo turno Flávio e Lula. Obviamente, eu não descarto isso. É uma probabilidade real e alta. Mas tem uma chance de acabar no primeiro turno justamente por essa antecipação do segundo no primeiro. Como você falou, se o Lula conseguir colar na aprovação, a gente está falando aí de 46%, 47% (de intenção de voto) do geral, que flerta com os 50% dos votos válidos. E o Flávio é a mesma coisa. E uma coisa está muito correlacionada à outra. Se o eleitor sentir que o PT pode ganhar o primeiro turno, aí sim o antipetismo de chegada fica mais evidente e mais forte.
Então é uma probabilidade de terminar o primeiro turno e com probabilidade de qualquer um dos dois ganharem?
Eu queria compartilhar aqui: não fiquem assustados se a oposição ganhar no primeiro turno.
A votação pelo fim da escala 6 por 1 muito provavelmente vai ficar para depois das eleições. Qual será o impacto dessa pauta na disputa presidencial?
O fim do 6x1 é amplamente aprovado pela opinião pública, inclusive não só por gente que gosta do governo. Gente que reprova o governo é a favor. É uma pauta que muda a vida das pessoas, mas eu tenho dúvidas se a gente está chegando num momento em que o 6x1 já está precificado e, se ele não acontecer, pode ser pior do que se ele acontecer. Se ele acontecer, o ganho marginal vai ser pequeno e, se não acontecer, pode realmente virar uma frustração.
Pode ser um tiro no pé então?
É, eu acho que entregar o 6x1 é parte fundamental da estratégia para tentar arriscar melhorar a aprovação.
O STF vive uma crise sem precedentes, protagonizada pelos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. Qual vai ser o impacto dessa crise e também de investigações que envolvem o Banco Master e a atuação do Lulinha, filho mais velho do presidente?
Essa semana teve uma pesquisa que a gente mostrou que 52% acham que os ministros do Supremo operam em função do seu próprio interesse individual. Também nessa pesquisa eu aprendi que o brasileiro gosta do devido ao processo legal; a opinião pública não curte vazamento, principalmente vazamento seletivo. Aí é importante dar um passo atrás, porque a maioria do País tem uma relação péssima com a Justiça. Principalmente as pessoas com menos poder aquisitivo. A Justiça trata muito mal essas pessoas. São as pessoas que vão presas e não têm direito ao devido processo, ficam esquecidas nas prisões sem ter julgamento, sofrem abuso, não só da Justiça, mas eventualmente da polícia. Então, essas pessoas já têm uma enorme restrição em relação à Justiça, quando acontece essas coisas de ficar evidente que não está sendo cumprido o processo legal, está se criando subterfúgios, piora ainda mais a imagem do Judiciário. Qual é o efeito disso eleitoral? Eu acho que, na verdade, é um desânimo coletivo. (O eleitor) começa a tratar o mundo político como se todos estivessem envolvidos no Banco Master, todos tivessem problemas de corrupção. E aí não tem mais um diferencial de quem é mais, quem é menos. E eu acho que, nesse momento, é muita informação para as pessoas. As pessoas não conseguem acompanhar o que é INSS, o que é Banco Master, o que é Dark Horse. Na cabeça das pessoas, está todo mundo envolvido.
O escritor Augusto Cury surpreendeu ao atingir 11% nas pesquisas, embora em alguns levantamentos já tenha oscilado para baixo. Tem espaço para um outsider nessa eleição ainda, faltando tão pouco tempo?
Acho muitíssimo improvável, porque todos os outsiders que venceram a eleição - os dois maiores foram, de alguma maneira, o Collor e o Bolsonaro - nessa altura já tinham um patamar de intenção de voto muito maior, um nível de conhecimento muito mais estabelecido e um clima no País mais propenso para o outsider. Eu acho que agora a gente está vendo um clima de conformismo.
Estadão
https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/vitoria-de-flavio-bolsonaro-no-1-turno-nao-seria-uma-surpresa-diz-o-economista-mauricio-moura/





