Ameaça de corte de água em lojas, dívida com bancos e agora MP na cola por inclusão dos sócios na proteção judicial
Por Felipe Frisch - São Paulo
A esfiha de R$ 0,19 virou um dos maiores símbolos da estratégia que transformou o Habib's em uma potência do fast-food brasileiro. A política de preços agressivos ajudou a popularizar a marca, multiplicou lojas e tornou Alberto Saraiva um dos empresários mais conhecidos do setor.
Saraiva sempre justificou a matemática com a verticalização do negócio, cardápios fixos e custos controlados. Três décadas depois, porém, o grupo tenta equacionar outra cifra: uma dívida de R$ 312 milhões. A companhia obteve proteção judicial contra credores e um dos vilões alegados na petição é a inflação, o dragão que Saraiva desafiava vendendo comida árabe a preços acessíveis, sem correção, para as classes C, D e E.
A mudança de hábito dos consumidores e os efeitos da pandemia, com a migração do público para o delivery, foram outros fatores externos que levaram o Grupo Gennius Brasil a recorrer à Justiça. A companhia argumenta que precisou continuar investindo para manter a operação competitiva em um mercado cada vez mais disputado. Outras dezenas de empresas tiveram efeito da pandemia, mas recorreram à proteção antes - no grupo Habib's, o dono diz que os juros entornaram o caldo.
Nos últimos meses, o grupo fechou restaurantes em cidades como São Paulo, São José do Rio Preto, Limeira, interior do estado, e Passos, no interior de Minas, em um movimento de racionalização da rede. A petição inicial não cita dívidas específicas próximas da execução como é comum nesse tipo de pedido, mas uma emenda posterior inclui mensagens com ameaça de interrupção do fornecimento de água em lojas.
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Bib'sfiha tornou a rede conhecida entre estudantes e famílias - Foto: Divulgação
A tutela cautelar, que costuma anteceder uma recuperação judicial, suspendeu por 60 dias as cobranças e execuções contra a holding e 174 empresas do conglomerado - a maior parte sendo os próprios restaurantes ou centrais de pedidos, mas incluindo também uma construtora (Vector 7), uma editora e firma de apresentações (Nova Edição Compêndios e Palestras), uma agência de propaganda (PPM Propaganda Promoção e Marketing) e uma consultoria (Support Back Office).
Curiosamente, a proteção judicial também inclui os administradores, Saraiva e seu irmão, Belchior, para impedir que os credores executem garantias ou acessam patrimônio pessoal. Isso é possível por meio de uma previsão na lei para produtores rurais. A petição cita a Estância Santa Edina, de propriedade da família, mas o Ministério Público questiona a relação da propriedade com a atividade empresarial.
A maior parte da dívida está concentrada em instituições financeiras como Itaú, Inter e Ouribank, mas a lista de credores também inclui fornecedores como Ambev, Bunge e Moinho Potenza, além de empresas de tecnologia e serviços como Oracle, Totvs, Google Brasil, Uber e Netflix. A maior dívida individual é com a importadora de brindes Bamko (R$ 4,3 milhões), seguida pela fornecedora de alimentos congelados De Marchi (R$ 1,7 milhão) e pela Seara (R$ 1,4 milhão), da JBS.
A Justiça aceitou suspender execuções e impedir que fornecedores interrompam contratos considerados essenciais para a continuidade da operação, desde que os novos fornecimentos sejam pagos. Em contrapartida, negou um pedido importante do grupo: a liberação de recebíveis e aplicações financeiras dadas em garantia aos bancos, mantendo as chamadas travas bancárias.
Fundado em 1988, o Habib's cresceu com os combos convidativos para gerações de estudantes e famílias. Saraiva foi criando marcas com outras especialidades e a mesma fórmula, como a italiana Ragazzo. Também expandiu cozinhas industriais, estruturou empresas imobiliárias, centros de distribuição, logística, tecnologia e alimentação coletiva, reunindo hoje mais de uma centena de empresas sob a holding Gennius Brasil.
Em 2014, o grupo foi alvo da operação Flex Food, que reuniu secretarias de Fazenda de seis estados e Distrito Federal após denúncia de um ex-franqueado sobre um esquema de sonegação controlado por um programa de informática adulterado, resultando em operações de busca e apreensão. Esse argumento também era usado por concorrentes para explicar os preços da rival. A empresa sempre negou as supostas irregularidades e não teve condenação no caso.
Procurado, o Habib's disse em nota que o "pedido de medida cautelar com o objetivo de negociar os passivos financeiros acumulados durante o período desafiador dos últimos anos" e informa que "todas as lojas do grupo continuam funcionando normalmente em todo o país, mantendo o mesmo padrão de qualidade e atendimento aos nossos clientes".
Pipeline
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