José Dirceu em sua volta à linha de frente da campanha eleitoral, após tratamento de saúde e com apoio de Lula - (crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil) |
José Dirceu deixa o Sírio-Libanês para reforçar campanha de Lula e Haddad

José Dirceu deixa o Sírio-Libanês para reforçar campanha de Lula e Haddad

O câncer foi diagnosticado em maio, depois de José Dirceu procurar o Sírio-Libanês para a realização de exames

Aos 80 anos, José Dirceu volta à linha de frente da campanha eleitoral depois de enfrentar uma das batalhas mais difíceis de sua longa trajetória. O ex-ministro da Casa Civil recebeu alta do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde vinha sendo acompanhado após o tratamento de um linfoma no duodeno. "Saindo do Sírio zerado para a labuta", avisou aos amigos na manhã desta sexta-feira (18/9). Candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo, ele pretende agora intensificar sua participação nas campanhas pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela eleição de Fernando Haddad ao governo paulista.

O câncer foi diagnosticado em maio, depois de Dirceu procurar o Sírio-Libanês para exames de rotina. Tratava-se de um linfoma no duodeno, parte inicial do intestino delgado. Segundo o próprio petista, o tumor tinha cerca de 10 centímetros e era agressivo, porém curável. O tratamento foi feito com quimioterapia e obrigou o candidato a praticamente trocar os palanques pela campanha digital, devido à queda de imunidade e à recomendação médica de evitar aglomerações.

Não era seu primeiro encontro com o câncer. Em 2020, Dirceu havia retirado um pequeno tumor do rim esquerdo. Desta vez, porém, a doença exigiu meses de quimioterapia. No começo de setembro, exames realizados na etapa final do tratamento mostraram a remissão do linfoma. A recomendação médica ainda era de resguardo por algumas semanas para a recuperação do sistema imunológico. Dirceu manteve durante esse período uma campanha essencialmente virtual, com entrevistas, reuniões e manifestações pelas redes sociais.

A volta à atividade presencial acrescenta um novo capítulo à biografia de um dos personagens mais controvertidos e influentes da esquerda brasileira nas últimas seis décadas. Mineiro de Passa Quatro, Dirceu nasceu em 1946, tornou-se líder estudantil nos anos 1960 e foi preso no Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968. Libertado no ano seguinte com outros presos políticos em troca do embaixador norte-americano Charles Elbrick, seguiu para o exílio, passou por Cuba e retornou clandestinamente ao Brasil durante a ditadura.

Com a redemocratização, participou da construção do PT e se tornou um dos principais estrategistas da ascensão do partido. Foi deputado estadual, deputado federal, candidato ao governo paulista e presidente nacional do PT entre 1995 e 2002. Naquele ano, coordenou a campanha que levou Lula pela primeira vez ao Palácio do Planalto e foi eleito deputado federal com mais de 556 mil votos. No novo governo, assumiu a Casa Civil e se tornou o principal articulador político do presidente.

Sua trajetória mudou dramaticamente com o mensalão. Dirceu deixou o governo em 2005 e teve o mandato de deputado cassado pela Câmara. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal, foi preso em 2013. Anos depois, voltou à prisão em decorrência da Operação Lava Jato. Em 2024, o ministro Gilmar Mendes anulou os atos processuais conduzidos pelo então juiz Sergio Moro contra o petista, decisão que abriu caminho para sua volta à disputa eleitoral.

É justamente essa volta que Lula transformou numa questão pessoal e política. Foi a convite do presidente que Dirceu decidiu concorrer novamente à Câmara e retornar à direção partidária. Nesta semana, Lula deu um passo além: gravou um vídeo pedindo explicitamente votos para o antigo companheiro e classificou sua eleição como uma "reparação histórica". Para o presidente, Dirceu foi vítima de perseguição e sua volta ao Congresso teria um significado que ultrapassa a eleição de mais um deputado petista.

O gesto revela também uma preocupação eleitoral. O PT considera Dirceu um candidato capaz de obter votação expressiva e ajudar a legenda a ampliar sua bancada paulista na Câmara. Para Lula, portanto, a candidatura de Dirceu tem dupla função: recuperar politicamente um de seus mais antigos aliados e contribuir para aumentar a representação parlamentar de uma eventual nova administração petista.

Dirceu, por sua vez, sempre deixou claro que considera sua própria eleição subordinada ao projeto nacional do partido. Quando recebeu o diagnóstico de câncer, em maio, anunciou que manteria a candidatura e definiu a reeleição de Lula como sua "batalha principal". Também passou a defender abertamente a candidatura de Haddad ao Palácio dos Bandeirantes e uma ampla composição das forças governistas em São Paulo.

Sua importância na campanha não decorre apenas dos votos que possa obter. Dirceu continua sendo um formulador político ouvido por dirigentes e militantes petistas. Defende que o partido reconheça o desgaste do governo, dialogue com setores que se afastaram da esquerda e dê respostas às mudanças ocorridas no mundo do trabalho, sobretudo entre jovens, trabalhadores informais e segmentos da classe média.

Correio Braziliense
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