Desempenho na terra de Trump da seleção, instrumentalizada pelo bolsonarismo, deverá ter impacto no discurso de Lula por soberania
Beto Bombig
A ditadura militar no Brasil (1964-1985) mostrou que a apropriação dos símbolos ligados ao futebol, mais especificamente, da seleção brasileira, pode ser um importante instrumento de propaganda política e, em alguma medida, de alienação das massas.
O exemplo mais bem acabado disso é a Copa do Mundo de 1970, no México, quando o então presidente, general Emílio Garrastazu Médici, chegou a interferir na convocação do "escrete canarinho", o famoso "Esquadrão de Ouro", e provocou a demissão do jornalista João Saldanha do comando técnico do time.
O título mundial daquela seleção foi capitalizado pela ditadura e tratado como uma vitória do regime autoritário, o que está longe de ser verdade porque ele foi conquistado dentro de campo por jogadores fantásticos, alguns deles, opositores dos militares. Parte dessa história está contada na minissérie Brasil 70: A Saga do Tri, da Netflix, que acaba de chegar ao streaming.
Desde então, grande parte dos brasileiros passou a enxergar o futebol e nossa seleção não apenas como um time, mas como um símbolo manipulável de propaganda. Após a redemocratização, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) manteve seus vínculos com o mundo da política, a ponto de a gestão de Ricardo Teixeira à frente da entidade ter criado no Congresso uma "bancada da bola", ou seja, parlamentares alinhados com a agenda dos cartolas.
Nesse período, por exemplo, parlamentares e políticos que se mostravam leais ou simpáticos aos interesses da CBF recebiam jogos da seleção em seus redutos eleitorais. Para adicionar ainda mais tempero à mistura, o calendário eleitoral e a Copa do Mundo caminham juntos no Brasil. Foi assim que, no final de 2001, a seleção brasileira se classificou para o Mundial do ano seguinte jogando em São Luís (MA), da então governadora e pré-candidata ao Planalto, Roseana Sarney, (PFL).
Meses depois, a seleção se despediu dos gramados nacionais e da torcida brasileira jogando em Fortaleza, em março de 2002. O Ceará era governado por Tasso Jereissati (PSDB), pré-candidato ao Senado, simpático à CBF e um dos grandes aliados do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Naquela altura, Roseana já enfrentava desgaste político com o caso Lunus, e a CBF achou por bem fazer um agrado ao mundo tucano.
A seleção brasileira de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho venceu a Copa do Mundo do Japão e da Coreia do Sul, em 2002, e foi recebida por FHC em Brasília, com a taça na mão e com Vampeta dando cambalhotas. O triunfo canarinho, no entanto, não ajudou o candidato de FHC, José Serra (PSDB). Lula (PT) soube transmutar a euforia da torcida em "esperança" e venceu as eleições daquele ano.
Muito mais recentemente, o uso de camisas da seleção brasileira em manifestações políticas reforçou a percepção da existência de uma relação simbólica entre futebol e ideologia, principalmente após o fortalecimento do chamado "bolsonarismo", o conjunto de signos, gestos, ideais, teses e atitudes ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Em 2018, quando Bolsonaro se candidatou a presidente e venceu as eleições, a seleção brasileira foi eliminada nas quartas-de-final da Copa da Rússia. A derrota para a Bélgica, se não alterou radicalmente os ânimos dos eleitores, também não serviu para mitigar a sensação dominante de que nada andava bem no Brasil, de que todo o "sistema" estava podre e tudo precisava ser mudado.
Quatro anos antes, o fiasco da seleção em solo pátrio, a derrota por 7 a 1 contra a Alemanha, havia inoculado em parte da população o vírus da desconfiança, do descrédito e da baixa autoestima. Não apenas com o time, mas com a própria realização do torneio no Brasil, um festival de suntuosas obras tocadas por empreiteiras e de promessas não cumpridas.
A eliminação na semifinal contra a Alemanha não foi suficiente para tirar a vitória eleitoral da então presidente Dilma Rousseff (PT), mas os protestos registrados na ocasião contra a Copa e o mau humor geral após a derrota, com certeza, foram determinantes na onda de manifestações que, menos de um ano depois, culminariam no impeachment da petista.
Em 2022, a Copa do Mundo no Qatar começou quase um mês depois das eleições, vencidas por Lula. Assim, a eliminação nas quartas contra a Croácia não teve interferência nos ânimos do eleitor na hora de apertar os botões da urna. Agora, porém, o cenário é diferente, e a pergunta se faz válida: o desempenho do Brasil na Copa pode favorecer ou atrapalhar Lula, Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão)?
A resposta, acima de tudo, dependerá da campanha do Brasil e de seu desempenho dentro de campo. Uma eliminação humilhante, em tese, deverá favorecer a oposição, pois aumentará o mau humor geral, o que jamais ajudou os incumbentes. No entanto, os bolsonaristas tentaram se apropriar de tal maneira da camisa da seleção e de seu universo nacionalista que Flávio também tende a sair prejudicado nessa hipótese de fracasso retumbante.
E em caso de uma vitória, de uma conquista do título? Obviamente, todo mundo tentará tirar uma lasquinha da taça, especialmente a direita ufanista e verde-amarela, incluindo Caiado, Zema e Renan. Do outro lado, Lula também deverá embarcar no nacionalismo e empacotar o triunfo como mais uma afirmação da soberania brasileira, conquistada, justamente, nos EUA, terra de Donald Trump.
Se for campeã, não sei se a seleção poderá ser recebida em Brasília pelo presidente (por conta das regras eleitorais) nem se haverá essa intenção por parte da CBF ou dos jogadores. Caso isso aconteça, criará uma imagem poderosa eleitoralmente. De qualquer forma, um triunfo em uma Copa sempre ajuda a desanuviar o ambiente e a abrir a percepção do eleitor para eventuais avanços e conquistas do governo, a famosa "boa vontade" que gera esperança.
Portanto, quando a bola rolar para a seleção brasileira a partir de 13 de junho, muita gente terá motivos para torcer pelo Brasil, cada um à sua maneira e com seus objetivos.
Vai é que tua
Em tempos de discursos nacionalistas embalados pela Copa, um profundo conhecedor da política e seus meandros faz uma análise interessante após os EUA terem proposto tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras. Segundo ele, pela terceira vez (a primeira no tarifaço, a segunda na visita presidencial recente e a terceira nessa nova "batalha do Pix"), Trump dá a Lula algo que seu governo tem dificuldade em obter: sentido, propósito, missão e direção.Vai que é tua 2
Um outro sábio analista pondera: a decisão deve prejudicar Flávio Bolsonaro. Mas a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas já deu ao filho de Jair uma agenda eleitoral sólida, a da segurança pública, além de ter reforçado sua ligação com o trumpismo, trazendo-o de novo para o jogo. Não fosse isso, do que estaríamos falando? Talvez ainda das ligações de Flávio com Daniel Vorcaro.Jota
https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-do-bombig/vitoria-ou-fracasso-como-a-copa-pode-influenciar-no-jogo-eleitoral-brasileiro





