Policial tenta conter foliões que empurram grades para escapar da superlotação do Bloco Skol, na rua da Consolação, em São Paulo - Bruno Santos/Folhapressp |
Multidão confinada na Consolação teve risco de tragédia, dizem especialistas; Nunes chama de 'sucesso'

Multidão confinada na Consolação teve risco de tragédia, dizem especialistas; Nunes chama de 'sucesso'

  • Prefeitura autorizou pela primeira vez dois megablocos na mesma via e houve superlotação
  • Tarcísio afirma 'não dá para ter 1,5 milhão de pessoas' na rua que recebeu os cortejos

Tulio Kruse
Clayton Castelani


O tumulto no cortejo de pré-Carnaval deste domingo (8) na rua da Consolação, na região central da cidade de São Paulo, é resultado de uma sequência de erros cometidos pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), segundo especialistas em gerenciamento de riscos e controle de multidões.

Eles destacaram falhas como subdimensionamento da quantidade de pessoas atraídas pelo evento, descontrole no acesso e monitoramento insuficiente para identificar pontos em que as aglomerações excederam os limites do espaço.

Contrariando tais análises, Nunes disse na manhã desta segunda (9) que a organização foi "um sucesso". No final da tarde, a prefeitura enviou nota em que repetiu o termo para descrever o evento, embora tenha citado que fará mudanças pontuais: vai posicionar agentes municipais dentro dos megablocos e fará alterações na área do Ibirapuera para a criação de mais rotas de saída.

Em uma reação conflitante com a manifestação do seu aliado político, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou que "não dá para ter 1,5 milhão de pessoas na [rua] Consolação", em referência ao público estimado no cortejo. Subordinada ao governador, a Polícia Militar divulgou nota em que diz ter criado rotas de fuga para evitar pisoteamentos. O Ministério Público de São Paulo informou que irá investigar o caso.

Tradicional local de desfile do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta no domingo que antecede o Carnaval, a Consolação também recebeu neste ano o Bloco Skol -marca da cervejaria patrocinadora do evento-, que atraiu milhares de jovens com a presença do DJ escocês Calvin Harris.

Importante via de acesso entre a av. Paulista e o centro histórico da capital, a Consolação tem aproximada 40 metros de largura entre suas calçadas e é cercada por prédios e muros. Trechos com possibilidade de escoamento do público, como a praça Roosevelt, foram fechados com tapumes.

Com dois megablocos muito próximos, houve superlotação. Espremidos por grades instaladas para organizar a entrada de público e proteger imóveis, foliões derrubaram o isolamento e invadiram edifícios públicos e privados nos arredores. Algumas pessoas relataram terem sido prensadas. Houve necessidades de atendimento médico. Não houve registro de feridos com gravidade, afirmaram as gestões Nunes e Tarcísio.



Segundo especialistas ouvidos pela Folha, as imagens do tumulto indicam que havia condições para pisoteamentos, o que poderia provocar ferimentos graves ou até mortes. Eles apontam problemas na estimativa de público, na escolha por realizar dois megaeventos na mesma hora e local, no controle do fluxo de entrada e nas áreas de dispersão.

Moacyr Duarte, especialista em análise de risco e gerenciamento de emergências, afirma que as cenas de foliões retirando grades de segurança contra as quais estavam prensados mostra falha de planejamento prévio para que as equipes em campo conseguissem manejar o fluxo de pessoas.

O acesso ao espaço confinado na rua da Consolação poderia ter sido fechado antes que a via ficasse lotado a ponto de provocar o tumulto, a partir do monitoramento das imagens da multidão, segundo Duarte.

"[O planejamento] falhou em manter a densidade projetada para aquela área, e se falhou é porque não tinha áreas de escape e nem tinha meios de comunicação com a população", diz Duarte, que já trabalhou com protocolos de segurança de blocos de Carnaval no Rio de Janeiro e coordenou a segurança do primeiro festival Lollapalooza em São Paulo, em 2012.

"Se você pegar a mesma situação ocorrida e olhar o que aconteceu em outros locais, você vai ver que as mortes por pisoteio, por falta de ar, por compressão contra a grade, essas coisas acontecem", diz o especialista.

Na tarde de domingo, a prefeitura proibiu o acesso à região onde ocorria o bloco com o DJ Calvin Harris, mas apenas após os registros de tumultos com foliões prensados nas grades de contenção. A decisão foi tomada às 14h55, embora os problemas já fossem registrados por volta das 14h.

Para Mariana Aldrighi, pesquisadora em turismo urbano da USP, o tumulto indica que o planejamento de segurança do evento provavelmente considerou uma estimativa de público muito menor.

Ela afirma que a quantidade de banheiros químicos, equipamentos de atendimento médico e o fechamento de ruas transversais com gradis -que tiveram de ser abertos- são sinais desse subdimensionamento. "Anunciaram dois blocos juntos, contra todos os alertas dizendo que aquilo seria ruim", diz Aldrighi. "Não se ouviu quem precisava ser ouvido."

Segundo Sandro Cabral, professor de Gestão Pública do Insper e estudioso de megaeventos, o caso demonstra falta de coordenação. "É óbvio que poderia ter morrido gente", diz Cabral

Antes da realização do evento, a Folha havia questionado o prefeito de São Paulo sobre os riscos à segurança. Na ocasião, ele afirmou que havia estrutura suficiente para garantir a ordem. "[O evento] vai ter toda estrutura de segurança e atendimento médico", disse Nunes, em 27 de janeiro. Já a patrocinadora Ambev disse, também no mês passado, seguir as regras dos órgãos competentes.

Gestões Nunes e Tarcísio destacam 'sucesso' e 'resposta rápida' diante de tumulto
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que "o final de semana de pré-Carnaval com 182 blocos desfilando sábado e domingo em toda a cidade foi um sucesso, sem incidente grave envolvendo os foliões".

Segundo a gestão Nunes, o "desfile do DJ Calvin Harris, domingo, aconteceu durante todo o percurso da rua da Consolação seguido por milhares de pessoas em clima de festa".

"O plano de contingência foi acionado diante da superlotação, e forças de segurança da GCM e da PM atuaram e controlaram a situação. O bloco seguiu até o centro da cidade e as cinco pessoas que receberam atendimento nos postos da prefeitura foram levadas para hospitais da região. Todas já foram liberadas", diz a prefeitura.

"Para garantir que o desempenho dos blocos não afete os desfiles, a administração terá, a partir dos próximos megablocos, agentes da prefeitura dentro dos trios para evitar eventuais transtornos com a dinâmica do Carnaval de rua", informou a gestão municipal.

Já a gestão do governador disse que "o esquema especial adotado no pré-Carnaval - em parceria com a Prefeitura de São Paulo, principal organizadora dos eventos - e outros órgãos, permitiu respostas rápidas e ajustes operacionais diante do aumento do público, contribuindo para a segurança das pessoas em geral na capital", diz a nota da Secretaria de Segurança Pública.

A Policia Militar, também por meio de nota, afirmou que a "decisão técnica de restringir o acesso à região e remover gradis laterais foi fundamental para criar rotas de fuga e dissipar a massa crítica de pessoas, evitando pisoteamentos e garantindo a integridade física dos cidadãos".

Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/02/multidao-confinada-na-consolacao-teve-risco-de-tragedia-dizem-especialistas-nunes-chama-de-sucesso.shtml