A defesa intransigente do multilateralismo e dos valores da Carta da ONU, bem como a luta contra as alterações climáticas, são desígnios partilhados
Paulo Rangel
Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros de Portugal
Há 200 anos, a 29 de agosto de 1825, Brasil e Portugal concluíram o Tratado do Rio Janeiro -Tratado de Paz, Amizade e Aliança-, em que Portugal reconhece a Independência do Brasil, três anos depois do "Grito do Ipiranga".
Ali foi proclamada "a mais perfeita amizade", que viria a consubstanciar o código genético desta relação entre irmãos, do novo vínculo entre iguais. A ligação entre os dois povos e as duas nações é tão profunda que Portugal não seria Portugal sem o Brasil e o Brasil não seria o Brasil sem Portugal. A relação de Portugal com o Brasil e do Brasil com Portugal é um dos traços da identidade essencial de cada um dos povos -embora obviamente seja apenas "um dos" traços, entre muitos outros, dessa identidade.
Isso diz tudo sobre a "perfeita amizade" que está sempre em vias de se renovar e aprofundar, porque a capacidade de essa amizade se aperfeiçoar faz parte do âmago do conceito de "perfeita amizade". Na verdade, e jogando com a "intenção objetiva" das palavras, uma "perfeita amizade" não é uma "amizade perfeita". A amizade perfeita está concluída, está perfeita, pode ser perene mas tem uma conotação estática.
A perfeita amizade é "aberta ao tempo", incorpora um sentido dinâmico, encontra-se em constante devir, em aperfeiçoamento incessante e permanente. A amizade perfeita perfez-se; a perfeita amizade está sempre a refazer-se.
A primeira dimensão dessa amizade é naturalmente a dimensão humana, logo traduzida no intercâmbio "demográfico" entre os dois povos, quase a dizer-nos que a amizade "virou" atração, atração física. Nunca tantos portugueses viveram no Brasil e tantos brasileiros viveram em Portugal; nunca tantos portugueses visitaram o Brasil e tantos brasileiros visitaram Portugal; nunca houve tantos duplos nacionais. Essas realidades demográficas são o espelho da proximidade funda entre os dois povos e ambas as comunidades têm um enorme reflexo cultural e econômico, que pode ainda ser largamente potenciado.
Outra dimensão intimamente ligada a esta vem a ser a da língua portuguesa, cultivada na literatura, na música, no teatro e no cinema, mas também na projeção global, inclusive política. A aposta estratégica na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e na relação com todos os povos lusófonos é disso o melhor exemplo.
Neste júbilo dos 200 anos, marca-se também os 50 anos da independência dos países africanos lusófonos; com eles, estima-se que a nossa língua comum possa atingir os 600 milhões de falantes no final do século. O português é língua oficial da Iberoamérica, do Mercosul, da União Europeia, da União Africana. A decisão, tomada na cúpula bilateral de Brasília de 2025, de avançar para a sua introdução gradual na ONU, com vista a chegar a língua oficial, é a prova dessa aposta conjunta.
No palco mundial, a defesa intransigente do multilateralismo e dos valores da Carta da ONU, bem como a luta contra as alterações climáticas são desígnios partilhados. Como já várias vezes afirmei, o Brasil é uma "superpotência climática" e, por isso, Portugal saúda a organização da COP30, em Belém, que terá de ser um novo marco da proteção da biodiversidade, dos oceanos e dos direitos inalienáveis das gerações futuras.
As relações econômicas e científico-acadêmicas têm conhecido um notável desempenho e são basicamente o resultado do cruzamento espontâneo das sociedades civis. Há ainda laços da nossa imbricação em que os Estados têm tido um papel catalisador. Pense-se no fluxo crescente de estudantes e investigadores, na abertura do escritório da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) em Lisboa, na ponte aérea diária para as mais diversas cidades do Brasil assegurada pela TAP ou no projeto exemplar da participação portuguesa na construção do avião KC-390 da Embraer.
Há 200 anos como agora, prevalecem as mágicas palavras que, desde 2021, cantam Caetano Veloso e Carminho na canção "Você-Você": "Requer de nós grande arte/ Criar novo mundo louco/ É muito e inda é pouco/ Que aprendas a conjugar-te".
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/08/brasil-e-portugal-200-anos-de-perfeita-amizade.shtml