As duas campanhas cantam vitória e tentam capitalizar o debate nas redes sociais. Isso não conquista de votos. Para o indeciso, o debate criou mais confusão do que esclarecimento
O primeiro confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, domingo, na TV Bandeirantes, terminou com duas vitórias proclamadas pelas respectivas torcidas e uma derrota evidente: a do debate público. Diante de um país preocupado com violência, custo de vida, saúde e emprego, Flávio trabalhou para nivelar a discussão por baixo, provocando o adversário; Lula escorregou na casca de banana e foi para um confronto pessoal com acusações recíprocas de corrupção. O indeciso que esperava esclarecer o voto no debate encontrou mais motivos para hesitar.
A estratégia do senador estava anunciada antes de sua chegada ao estúdio. Na manifestação da Avenida Paulista, Flávio prometera confrontar o presidente com acusações. No palco, mostrou preparo para executar esse roteiro: interrupções, ironias, movimentação atrás do adversário e frases destinadas aos cortes das redes sociais. Começou mais tranquilo, tomou a iniciativa e conseguiu deslocar a discussão das propostas para os escândalos. Sua vantagem foi ditar o ambiente emocional do confronto, desestabilizando o presidente Lula.
Essa desenvoltura frequentemente descambou para a arrogância. O sorriso de escárnio e a insistência em constranger Lula agradaram aos convertidos, mas podem ter afastado quem procurava equilíbrio e capacidade de governar. A provocação sobre proteger a própria carteira, por exemplo, sintetizou o método: produzir uma humilhação facilmente compartilhável, mesmo que isso sacrificasse a discussão sobre o futuro do país.
Flávio também expôs fragilidades quando precisou responder. Desviou de cobranças sobre seu voto contra a ampliação da licença-maternidade, foi pressionado pelas mudanças de posição sobre a escala 6×1 e não assumiu compromisso claro diante do desafio de abertura dos sigilos bancário e telefônico. Os questionamentos sobre recursos do Banco Master para a cinebiografia de Jair Bolsonaro o colocaram na defensiva. São assuntos que exigem esclarecimentos, investigações e responsabilidades comprovadas.
Lula teve seus melhores momentos quando explorou essas contradições e cobrou respostas concretas. A experiência administrativa lhe permitiu apresentar referências sobre indústria, crédito, educação e proteção social. Ao recordar os 700 mil mortos da pandemia, levou Flávio a admitir que o governo de seu pai foi muito insuficiente na saúde. O presidente também acertou ao reconhecer a insatisfação com o custo de vida: resultados econômicos precisam chegar ao orçamento doméstico para se transformar em reconhecimento político.
Seu ponto fraco foi perder o comando da própria estratégia. Preparado para defender realizações e discutir propostas, deixou-se arrastar para a troca de ofensas. A expressão "malandro carioca" ofereceu munição desnecessária ao adversário. A irritação e a aparência de cansaço, percebidas até por aliados, reduziram a força de suas intervenções. Quando poderia aprofundar uma cobrança incômoda, forçar Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico, aceitou mudanças de assunto. Resumindo, conhecer mais a máquina pública não bastou para controlar o confronto.
O que farão?
A repercussão negativa do debate ultrapassou as fronteiras. Os veículos estrangeiros descrevem um encontro áspero, caótico e dominado por insultos. Sobraram acusações e faltou comparação entre políticas públicas. Até a política externa virou uma disputa entre amizades inconvenientes.
Entretanto, as duas campanhas encontraram passagens para cantar vitória e capitalizar o debate nas redes sociais. Isso não demonstra conquista de votos. Para o indeciso, o saldo foi mais confusão do que esclarecimento. A frustração produzida pelo encontro precisa ser medida nas próximas pesquisas. O risco é alimentar a abstenção e o voto nulo. Uma campanha concentrada em provar que o outro é inaceitável pode convencer parte do público a rejeitar os dois.
Lula foi ao debate embalado pela pesquisa Vox Brasil, divulgada no domingo, que registrou 51% dos votos válidos para o presidente e 49% para Flávio, dentro da margem de erro. Já o PoderData/Aya divulgado na segunda-feira botou lenha na fogueira de Flávio: apontou o senador com 52%, contra 48% de Lula. Ambas mostram uma disputa aberta. As entrevistas ocorreram antes do debate; portanto, nenhum desses resultados pode ser apresentado como consequência do desempenho no palco. O retrato é de disputa aberta, com divergência entre levantamentos.
A semana final começa sob esse impacto. Flávio esteve em Marabá nesta segunda-feira, com promessas de regularização fundiária, flexibilização ambiental e endurecimento penal, e tinha agenda prevista em Manaus. Nesta terça-feira, Lula prepara uma caminhada entre Juazeiro e Petrolina, atravessando o São Francisco para mobilizar seu eleitorado nordestino. Nas redes, lulistas procuram recuperar ausentes e conquistar votos; bolsonaristas cobram engajamento dos aliados.
Os atos de rua disputarão espaço com os recortes do debate nas redes, enquanto as equipes ajustam a preparação para o confronto da Globo, na sexta-feira. Lula precisa recuperar a iniciativa sem aceitar cada provocação. Flávio precisa demonstrar que sua candidatura oferece mais do que ataques. Até domingo, ambos terão de responder à pergunta que está na cabeça dos eleitores indecisos: o que pretendem fazer com o poder que disputarão nas urnas.
Correio Braziliense
https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/lula-escorrega-na-casca-de-banana-mas-no-final-do-debate-desafia-flavio/

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