O Jockey ocupa uma área de 600 mil m² na Cidade Jardim, uma das regiões com o metro quadrado mais caro de São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão |
Endividado, Jockey Club e BTG negociam parceria de quase R$ 200 milhões para reformas

Endividado, Jockey Club e BTG negociam parceria de quase R$ 200 milhões para reformas

Hipódromo acumula débito quase bilionário com Prefeitura de SP e é investigada sobre uso de verba pública. Procurados, clube e banco não se manifestaram


Por Malu Mões

O Jockey Club de São Paulo diz negociar um aporte de "pouco menos" de R$ 200 milhões com o banco BTG Pactual, segundo o presidente do hipódromo, Vicente Renato Paolillo. Segundo ele, o investimento será utilizado para modernizar o espaço, com a implementação de novas áreas de lazer e piscinas. Procuradas pela reportagem, o Jockey e o banco não quiseram se manifestar.

"O Jockey continua numa situação muito precária (financeiramente). O que se imaginou foi algum investidor nos ajudar e implantar um desenvolvimento lá. O BTG nos apresentou um projeto para expandir o nosso clube, porque temos atividades esportivas e sociais pequenas, mas temos muito espaço ocioso e livre que pode ser utilizado para isso", afirmou Paolillo no último dia 8 na Câmara Municipal de São Paulo. "O BTG comprou essa ideia e estamos para finalizar um contrato de parceria com eles."

A declaração foi feita durante depoimento dele à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga suspeitas de irregularidades no uso de verbas públicas pelo Jockey e a dívida quase bilionária do clube com a Prefeitura (leia abaixo).

Localizado desde 1941 na Cidade Jardim, bairro nobre na zona sul da capital, o Jockey ocupa uma área de 600 mil m², com quatro pistas de hipódromo, restaurantes e áreas verdes.

Em 19 de agosto, a Assembleia Geral de associados do Jockey aprovou a "parceria estratégica" entre o clube e o banco. Foram favoráveis 115 sócios, com um voto contrário e outro em branco. O hipódromo tem cerca de 300 sócios. No começo de agosto, o jornal Folha de S.Paulo havia revelado a negociação.

À CPI, Paolillo citou como exemplo de modelo de negócio o clube de luxo já construído pelo BTG próximo à Ponte Transamérica, também na zona sul. O Beyond The Club tem praia artificial para surfe e pista interna para esqui e snowboard.

O projeto do hipódromo, porém, não envolve o clube de luxo. O presidente do Jockey também não mencionou planos de incluir estruturas similares.

Dívida com a Prefeitura

Conforme o presidente do Jockey, o investimento do BTG "vai, inclusive, ajudar a resolver as pendências com a Prefeitura". "Essa é uma das razões pelas quais buscamos a parceria com o BTG, que vai nos socorrer, vai nos colocar numa situação de equilíbrio", disse ele aos vereadores.

A Prefeitura de São Paulo afirma que o Jockey deve R$ 905.349.836,85 ao Município em decorrência da inadimplência de impostos - é o 14.º maior devedor da capital. Segundo a gestão, são cerca de R$ 500 milhões em débitos de IPTU, R$ 300 milhões de ISS e o restante de outros tributos.

Há uma disputa judicial sobre o valor devido, que já dura anos. O clube questiona a cobrança do imposto, alegando que deveria ser isento.

"Os lançamentos que a Prefeitura faz desde sempre, a nosso ver, salvo o melhor juízo, não estão bem baseados", criticou Paolillo à CPI. "Também não se leva em conta a questão de lá ser uma zona de proteção ambiental e quase todo o hipódromo ser tombado, o que exigiria um tratamento diferenciado."

Em nota, a Prefeitura afirmou haver "diversos processos de execução fiscal em andamento contra o Jockey para cobrar débitos relacionados aos imóveis vinculados à instituição". "As cobranças estão sendo realizadas na esfera judicial."

Em março de 2025, o Jockey apresentou pedido de recuperação judicial por causa da dívida de R$ 19 milhões com empresas prestadoras de serviço e trabalhadores.

Em setembro do ano passado, a 1ª instância do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) autorizou o pedido de recuperação. Mas um dos credores questionou a legitimidade da solicitação, apontando que associações civis sem fins lucrativos, como o Jockey, não têm direito à recuperação judicial. Em abril de 2026, a 2ª instância do TJ acatou a interpretação - ainda cabe recurso.

CORRIDA DE CAVALO JOCKEY CLUB JOQUEI CLUBE APOSTAS AZAR PROIBIÇÃO. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
A Prefeitura de São Paulo afirma que o Jockey deve R$ 905 milhões ao município em decorrência da inadimplência de impostos. Clube contesta o valor. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

No pedido de recuperação judicial, o clube critica a cobrança de IPTU pela Prefeitura, afirmando que os critérios de cobrança "permaneceram sob denso e doloso mistério". "Tal clima é de interesse e utilidade do ente municipal que alardeia deter créditos ilusórios e mirabolantes", diz trecho da ação.

Na semana passada, o presidente do Jockey afirmou à CPI estar "muito esperançoso de que agora consigamos chegar a uma boa conclusão" com a Prefeitura sobre as dívidas.

Na recuperação judicial, o Jockey apontou como culpados por sua situação econômica diferentes fatores, que vão desde um veto às competições hípicas na década de 1960, já revertido na década seguinte, até o IPTU cobrado desde 1980. Também culpa a Lei Cidade Limpa, sancionada em 2006 pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD), que removeu cerca de 30 outdoors do clube e eliminou essa receita. Ainda cita um litígio sindical com os profissionais de turfe, a mudança de comportamento do público e a pandemia - além da lei municipal que proibiu apostas com animais, que só durou um mês por causa da suspensão pela Justiça.

Prefeitura e vereadores planejam parque

Apesar da negociação com o BTG, um projeto aprovado na Câmara Municipal e sancionado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) prevê que o Jockey vire parque municipal, com a desapropriação do terreno devido às dívidas.

"Se não tiver um parque aberto para população, não vou aceitar", afirmou o prefeito ao Estadão sobre a parceria entre o Jockey e o BTG.

A discordância do clube acerca da ideia fica clara em seu pedido de recuperação judicial. "Após algumas pressões de bastidores em 2022 e 2023 principalmente, os ensaios de tentativas de arrebatar o terreno da entidade por conta de supostos débitos de IPTU, também supostamente impagos, os agentes municipais saíram do campo da ameaça e materializaram o abuso", diz o documento.

Em 2023, a Câmara Municipal aprovou a transformação do terreno em um parque durante a revisão do Plano Diretor. A emenda ao projeto de lei sobre o Jockey foi apresentada pelo então presidente da Câmara, Milton Leite (União Brasil). Na época, o vereador argumentou que o parque traria "maior utilização do equipamento por parte da população e maior integração com a cidade".

A Prefeitura afirmou, em nota, aguardar a "resolução das questões jurídicas envolvendo a área para que o local possa integrar o planejamento de implantação de parques".

O presidente da CPI na Câmara, o vereador Gilberto Nascimento (PL), considerou a parceria com o BTG para modernização do Jockey como positiva. "Eles têm uma dívida muito grande com a cidade. Mas, com o interesse do BTG em fazer um investimento ali e remodelar todo o clube, começa a parecer que eles vão conseguir pagar a conta", defendeu.

Procurada, a presidência do Legislativo não quis se manifestar sobre o projeto a despeito do plano do parque.

Jockey contratou auditoria externa após investigação da Prefeitura e da Câmara
Em outubro de 2025, a Controladoria-Geral do Município (CGM) de São Paulo instaurou uma auditoria para apurar suposto uso indevido de recursos públicos pelo Jockey.

O Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura apontou "despesas absolutamente impertinentes" ao rejeitar a prestação de contas do clube referente ao uso de R$ 61,3 milhões obtidos por meio de incentivo municipal à preservação e restauração de bens tombados (protegidos como patrimônio).

A investigação inclui a suspeita de uso do recurso até com ambulâncias para o público em eventos de corridas de cavalo (R$ 37,5 mil), aulas de origami (R$ 1.450) e dez quilos de açúcar (por R$ 2.394). Pelas regras do programa, segundo a Prefeitura, a verba deveria ser usada apenas em ações como manutenção, restauro, pintura etc.

Na época em que o processo foi instaurado, o Jockey negou irregularidades e apontou que "os valores foram aplicados exclusivamente na preservação, conservação e manutenção das áreas tombadas".

"Diferentemente do que foi afirmado, não houve retificação da prestação de contas por meio do DPH. Também é incorreto dizer que o órgão deixou de questionar a prestação de contas, pois o processo segue os ritos legais e está em andamento", afirmou a Prefeitura em nota.

O DPH rejeitou a prestação de contas do Jockey e enviou os documentos para auditoria da CGM, que avalia se houve descumprimento, parcial ou integral, das regras de uso do recurso. O clube pode ser multado e até ter de ressarcir integralmente o município pelos R$ 61 milhões obtidos pelo programa.

Aos vereadores, o presidente do Jockey afirmou que o clube contratou uma auditoria externa, que está em fase final de elaboração do parecer acerca dos gastos. Segundo ele, o objetivo é "justamente buscar essas possíveis inconsistências para que isso fique mais claro".

CORRIDA DE CAVALO JOCKEY CLUB JOQUEI CLUBE APOSTAS AZAR PROIBIÇÃO. Foto: Tiago Queiroz/Estadão
Em 2023, a Câmara Municipal aprovou a transformação do terreno do Jockey em um parque durante a revisão do Plano Diretor. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

"Houve uma primeira prestação de contas que veio um tanto equivocada e depois foi retificada e, a partir daí, o DPH não questionou mais", afirmou Paolillo, apesar de as contas terem sido rejeitadas.

Paolillo assumiu a presidência do hipódromo apenas em fevereiro deste ano, após a abertura da investigação pela Prefeitura. Os gastos questionados ocorreram durante as gestões de Benjamin Steinbruch (2017 a 2024) e Marcelo Arthur Motta Ramos Marques (2024 a janeiro de 2026).

Questionado pelos vereadores, Paolillo confirmou que Steinbruch emprestou R$ 7 milhões ao Jockey devido à crise financeira do clube. O atual presidente disse que, até agora, o hipódromo ainda deve R$ 2 milhões ao antigo mandatário.

"Há alguns anos estamos atravessando uma crise financeira séria, grave, e esses empréstimos foram espontaneamente efetuados por alguns conselheiros, alguns sócios; até eu mesmo modestamente ajudei na medida do possível. Foi no sentido de acudir necessidades básicas, como pagar folha de pagamento", afirmou Paolillo.

Estadão
https://www.estadao.com.br/sao-paulo/endividado-jockey-club-e-btg-negociam-parceria-de-quase-r-200-milhoes-para-reformas/