Panorama ficou evidenciado na pesquisa Quaest divulgada nesta terça-feira
Por Samuel Lima - São Paulo
Pesquisa Quaest divulgada na terça-feira aponta que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), consegue atrair uma parte do voto de esquerda no estado que naturalmente estaria inclinado ao ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). O fenômeno do voto "Tarula" inclui eleitores que se declaram apoiadores do presidente Lula, candidato à reeleição.
Pelo levantamento contratado pela TV Globo, Tarcísio mantém a liderança na disputa pelo Palácio Bandeirantes, com 40%, contra 27% de Haddad no primeiro turno, segundo a Quaest divulgada na terça. Em julho, o atual governador tinha 41% e Haddad, 26%.
No maior colégio eleitoral do país, o presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ), e Lula estão empatados tecnicamente na simulação de primeiro turno, com 30% e 29%, respectivamente. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Na última Quaest realizada em São Paulo, no fim de julho, Flávio marcava 34%, contra 30% de Lula.
Polarização à parte
Pelos números da Quaest, 11% dos lulistas em São Paulo optam por Tarcísio em um confronto direto com Haddad, além de 11% dos eleitores que se consideram de esquerda, mas dizem não se encaixar no termo. Esse campo representa, como um todo, cerca de um quarto do eleitorado paulista. Do outro lado, Haddad consegue atrair 2% dos votos dos bolsonaristas, além de 4% dos eleitores de direita que não se consideram seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro, de quem o candidato do Republicanos foi ministro.Além de fidelizar os respectivos grupos políticos, as campanhas duelam pelo voto dos autodeclarados "independentes", que alcançam quase metade dos eleitores paulistas. Neste caso, Tarcísio aparece em vantagem, com 27% das intenções de voto, contra 24% de Haddad, no primeiro turno.
- O Tarcísio consegue morder um pedaço do eleitorado da esquerda e do lulismo, coisa que o Haddad não consegue fazer na direita - disse o CEO da Quaest, Felipe Nunes, ao divulgar os números na GloboNews.
A situação é inversa na eleição presidencial, em que Lula captura 90% das intenções de votos entre os seus apoiadores e 78% da esquerda. Já Flávio tem problemas para fidelizar a direita, ao marcar 80% entre os bolsonaristas e 59% na direita que rejeita o rótulo. Lula também está em vantagem nos independentes, com 20%, ante 10% de Flávio. A margem de erro varia de três pontos percentuais, no centro, a seis pontos, no caso dos campos ideológicos, dependendo da incidência das amostras no total de entrevistados.
Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV, explica o voto cruzado a partir de um "eleitor pragmático", que considera "mais as entregas de governo do que um alinhamento ideológico" ao escolher os seus candidatos a governador e presidente da República. Ele destaca ainda a capacidade de Lula de, historicamente, atrair para a sua base um eleitor de fora do campo tradicional do PT, algo que também ocorre com Tarcísio a partir do momento que se posiciona mais ao centro e reduz a dependência da família Bolsonaro.
- Não é um ponto desprezível porque temos uma eleição nacional difícil de prever, em que qualquer fluxo de votos pode fazer a diferença. Tarcísio está bem melhor do que o Flávio em São Paulo, o que faz com que o Flávio precise dele, enquanto o Haddad precisa pegar carona no Lula - analisa o cientista político.
Na pesquisa Quaest anterior, divulgada em 29 de julho, Tarcísio tinha 12% das intenções de voto entre lulistas, mais 7% na esquerda não-lulista e 31% entre os independentes. Haddad aparecia com 7% entre bolsonaristas, 5% na direita não-bolsonarista e 20% dos independentes. A análise também pode ser feita nos levantamentos do Datafolha. O material publicado em 24 de agosto mostra 20% dos votos dos petistas indo para Tarcísio, com Haddad marcando 4% no grupo bolsonarista. A margem de erro é de quatro pontos.
Integrantes do núcleo duro da campanha de Haddad atribuem a desvantagem atual ao nível de desconhecimento do candidato, que não estaria inteiramente associado ao líder do PT.
Além de colar em Lula, Haddad deve se concentrar em pontos vistos como desfavoráveis do mandato de Tarcísio, como problemas no transporte público; reclamações contra a Sabesp, a empresa de saneamento; e queda no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Dados da própria Quaest mostram que a percepção negativa do atual governador aumentou nessas áreas, ainda que a principal queixa continue sendo a política de segurança pública, outro tema que costuma ser abordado com frequência pelo candidato do PT ao governo.
Já os aliados de Tarcísio admitem que a campanha tenta tirar o peso do bolsonarismo, quatro anos depois de ser eleito com elevada dependência do ex-presidente, para preservar a liderança que detém entre os independentes e a direita que rejeita o rótulo. Um exemplo seria o material de campanha que adere à cor azul, em vez do tradicional verde e amarelo das manifestações do grupo. Ao circular pelas ruas, o GLOBO recebeu santinhos que não trazem a foto de Flávio, apenas o nome dele no verso.
- A gente está trabalhando para as pessoas, o resto é consequência. Claro que a gente acaba capturando também votos de pessoas que estão pensando na presidência da República no outro candidato, mas a gente aqui vai estar junto do Flávio, vamos acompanhar bastante a trajetória dele - disse Tarcísio no sábado, horas antes de encontrar o presidenciável do PL na Festa do Peão de Barretos, no interior do estado.
Voto para o Senado
No primeiro debate da dupla, na TV Band, no dia 9, houve uma tentativa de Haddad de encurralar o adversário sob esse ponto de vista. Tarcísio reclamou de menções do petista a Bolsonaro, e Haddad aproveitou para perguntar se ele tinha vergonha do ex-presidente, o que o obrigou a elogiar a gestão e mandar um abraço ao aliado. Mesmo com 40 minutos à disposição, Tarcísio não citou o nome de Flávio. Apenas indagou se não seria o momento de "dar uma guinada" nos rumos do país.A pesquisa Quaest contratada pela TV Globo também mediu a intenção de voto para o Senado, que este ano tem duas vagas abertas. As ex-ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), com 12% e 11%, e o deputado Guilherme Derrite (PP), com 12%, lideram, em empate técnico. As ex-ministras de Lula fazem parte da chapa de Haddad, enquanto Derrite representa o grupo político de Tarcísio.
(Colaborou Sérgio Quintella)
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/26/o-voto-tarula-tarcisio-atrai-parte-do-eleitorado-a-esquerda-e-lulista-reduzindo-dependencia-do-bolsonarismo-em-sp.ghtml





