A sede do Supremo Tribunal Federal - Foto: Gustavo Moreno/STF |
Pesquisa Quaest: só 11% priorizam impeachment no STF ao escolher senador

Pesquisa Quaest: só 11% priorizam impeachment no STF ao escolher senador

Por Thomas Traumann


O bolsonarismo acha que basta um candidato a senador defender o impeachment do ministro Alexandre de Moraes que estará eleito, mas uma pesquisa inédita Genial/Quaest mostra que nem tudo que rende likes garante votos. Só 11% dos eleitores vão escolher candidatos pela defesa do impeachment de um ministro do STF, enquanto 31% vão decidir por candidatos que tragam obras e emendas para o estado.

Nesta newsletter, mostro ainda os riscos da disputa entre o STF e a Polícia Federal, o resultado de uma pesquisa qualitativa sobre as limitações do voto no presidente Lula, como o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, está repetindo erros dos anos 1950 e uma resenha da biografia de Leonel Brizola. Boa semana e boa leitura!

1. O eleitor quer mais obras e menos likes

Principal aposta do bolsonarismo para conquistar pela primeira vez a maioria do Senado, a defesa do impeachment de ministros do STF é considerada prioritária por apenas um de cada dez eleitores, revela inédita pesquisa Genial/Quaest. Na avaliação majoritária de todos os segmentos de gênero, região, idade, escolaridade e renda, a prioridade para os eleitores na escolha do voto para senador é trazer emendas e obras para o estado. Nacionalmente, 31% dos eleitores querem um senador de entregas.

Empatados em segundo lugar na margem de erro como o motivo de escolha do candidato a senador, segundo a pesquisa, estão ser apoiado pelo presidente Lula, votar pelo fim da escala 6x1 e ser independente da polarização. Só depois dessas possibilidades é que aparecem o voto pró-impeachment no STF e o fato de o candidato ser indicado pelo ex-presidente Bolsonaro.

Qual o atributo mais importante para decisão do voto:

  • Trazer emendas e obras para o estado: 31%
  • Apoio de Lula: 15%
  • Votar contra a escala 6x1: 13%
  • Ser independente da polarização: 12%
  • Votar pelo impeachment de ministros do STF: 11%
  • Apoio de Bolsonaro: 8%
  • Nenhuma opção: 4%
  • Não sabe: 6%
Fonte: Genial/Quaest - agosto 2026

A sondagem sugere que a palavra de ordem da direita contra o STF está hoje restrita a ex-eleitores de Jair Bolsonaro (25% destes acham o impeachment prioritário) e à elite de eleitores com ensino superior (16%) e com renda acima de cinco salários mínimos (16%).

Mesmo entre segmentos tradicionais do bolsonarismo, a preferência não é pela pauta ideológica, mas por senadores que tragam recursos para seus estados, como os eleitores evangélicos (35% priorizam obras) e da região Sul (41%).

Ser o candidato indicado por Lula assegura o voto de 26% dos eleitores do Nordeste e 24% dos eleitores com mais de 60 anos. Para 22% dos eleitores com menos de 34 anos, o item mais importante é o fim da escala 6x1.

Quando se monta o combo de eleitores que preferem candidatos apoiados por Lula e contra a escala 6x1 versus os indicados por Bolsonaro e defensores do impeachment no STF, temos um recorte do que pode vir a ser o debate desta campanha por 56 vagas no Senado:

Prioridades do voto por região:


Nordeste (18 novos senadores)
  • 31% obras e emendas
  • 38% pró-Lula e fim da 6x1
  • 12% pró-Bolsonaro e impeachment
Sudeste (12 novos senadores)

  • 30% obras e emendas
  • 24% pró-Lula e fim da 6x1
  • 20% pró-Bolsonaro e impeachment
Sul (6 novos senadores)

  • 41% obras e emendas
  • 20% pró-Lula e fim da 6x1
  • 22% pró-Bolsonaro e impeachment
Centro-Oeste/Norte (22 novos senadores)

  • 28% obras e emendas
  • 26% pró-Lula e fim da 6x1
  • 26% pró-Bolsonaro e impeachment
Fonte: Genial/Quaest - agosto 2026

A pesquisa empurra o bolsonarismo para a realidade. Nos cortes da internet, o radicalismo contra o STF rende likes e engajamento, mas é aplauso de eleitores já conquistados. Pode eleger um deputado (que, aliás, não vota em eventual processo de impeachment de ministro do STF), mas para uma vaga no Senado é preciso mais.

Enquanto a esquerda colocou o pé no chão com a bandeira do fim da escala 6x1, a direita segue atrás de seus fantasmas ideológicos e perde a chance de falar de problemas reais do cotidiano.

*

Faltando menos de dois meses para as eleições, a campanha para o Senado ainda está engatinhando. Na pesquisa de julho em dez estados, a Genial/Quaest revelou que a maioria dos eleitores admitia mudar seu voto. Na Bahia, o estado com o voto mais garantido, 51% podiam trocar de candidato. No Paraná, 68%.

Parte disso tem a ver com a ignorância sobre as regras. Na pesquisa nacional de agosto, apenas um terço dos eleitores sabem que são duas as vagas de senador em disputa por estado.

Quantos senadores serão escolhidos em outubro:

  • Não sei: 34%
  • Dois: 34%
  • Um: 22%
  • Três: 10%
Fonte: Genial/Quaest - agosto 2026

Sem uma campanha de esclarecimento da Justiça eleitoral, o número de votos nulos e brancos por não saber que nesta eleição são dois senadores por estado pode subverter a vontade popular.


O ministro do STF André Mendonça e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues - Foto: Montagem sobre fotos de Luiz Silveira/STF e Brenno Carvalho/Agência O Globo
O ministro do STF André Mendonça e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues - Foto: Montagem sobre fotos de Luiz Silveira/STF e Brenno Carvalho/Agência O Globo

2. A policialização da eleição

A disputa entre o ministro do STF André Mendonça e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, sobre o controle dos inquéritos sobre o Master e o INSS pode transformar uma eleição politizada em policializada. As investigações do Master podem mostrar para onde, de fato, foram os mais de R$ 60 milhões doados pelo banqueiro corrupto Daniel Vorcaro para Flávio Bolsonaro. O inquérito do INSS pode mostrar se o filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, participou do esquema de fraude contra aposentados do INSS liderado por Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS". Quem controlar o ritmo das ações policiais e da divulgação do rumo das apurações pode, no limite, ajudar a escolher quem será presidente a partir de 2027.

Indicado por Jair Bolsonaro, André Mendonça acredita que Andrei Rodrigues, nomeado por Lula, está atrasando as apurações envolvendo o filho do presidente e apressando as que atingem Flávio Bolsonaro. Andrei Rodrigues acha a mesma coisa do ministro do STF, só que com a preferência invertida.

O advogado-geral da União, Jorge Messias, e o ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, se reuniram com André Mendonça na quinta-feira (6) para um armistício. Mendonça reclamou que depoimentos já colhidos e os relatórios periódicos sobre o andamento das investigações não estariam sendo juntados aos autos. A PF acusa Mendonça de proibir seus delegados de compartilharem informações com seus superiores e de fazer microgerenciamento das investigações. Os dois lados se acusam de vazamentos ilegais. Uma nova reunião, agora com a presença de Andrei Rodrigues, deve ocorrer nesta semana.

Como mostrou a repórter Andréia Sadi, da GloboNews, na visão de investigadores, a decisão judicial que restringiu o fluxo de informações internas pode, em tese, gerar questionamentos futuros sobre a validade de atos da investigação.

A disputa de André Mendonça para controlar a PF é o capítulo mais intenso de uma série de ações politizadas de ministros em período eleitoral. Na terça-feira, os ministros Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin patrocinaram o primeiro encontro em quase quatro meses entre os presidentes Lula e Davi Alcolumbre - mediação que nunca esteve na descrição das tarefas do STF.

O Supremo ainda não marcou o julgamento sobre a sucessão para governador do Rio. Como o ministro Flávio Dino só devolveu o seu pedido de vista em 30 de junho, o julgamento deve ser pela continuidade do governador interino, o desembargador Ricardo Couto, até a eleição direta em outubro. A demora do julgamento inviabilizou a eleição indireta, o que ajudaria a campanha do candidato bolsonarista, Douglas Ruas.

3. Por que não eu?

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tenta se reaproximar de Lula por uma conta simples para a sua tentativa de reeleição em fevereiro. Hoje, o bolsonarismo tem um candidato a presidente do Senado, Rogério Marinho, e o Centrão tem dois, Tereza Cristina e Arthur Lira. O lulismo não tem nenhum. Por enquanto.

Depois do jantar com Alcolumbre, Lula assinou o projeto de criação da nova Universidade da Fronteira, no Oiapoque, no Amapá, promessa de campanha do senador Randolfe Rodrigues e... de Davi Alcolumbre.

4. A falta que faz um sonho

Candidato a presidente pela sétima vez, o presidente Lula tem potenciais de voto diferentes no primeiro e no segundo turno, sugere uma pesquisa qualitativa do Projeto Plaza Pública. No primeiro turno, além da rejeição histórica, Lula é julgado, principalmente, pela insatisfação geral com a atual situação econômica. No segundo turno, no entanto, eleitores que não gostariam de votar nele acabam o escolhendo pelas deficiências que enxergam em Flávio Bolsonaro.

- O teto de Lula é sustentado pelo fato de Flávio ser percebido como pior. Os eleitores, mesmo os que votaram em Bolsonaro, reconhecem em Lula um passado de avanços sociais. Há mais críticas do que elogios sobre o presente. Mas o problema principal é que Lula não vende um futuro - explica o coordenador da pesquisa, o psicólogo Eduardo Sincofsky, diretor da Plaza Pública.

O risco para a campanha Lula, diz a pesquisa, é se apegar aos ganhos do passado e perder para a oposição a apresentação de um futuro de país. Falta um sonho para os eleitores de Lula.

A pesquisa, feita com longas entrevistas com 20 eleitores arrependidos de Lula e Jair Bolsonaro do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Joinville e Recife, mostra que a fadiga de material de Lula é real, mas por enquanto menor que a da família Bolsonaro.

A rodada de entrevistas sugere que o nó para a vitória tanto para Lula quanto para Bolsonaro está entre os eleitores que recebem entre dois e cinco salários mínimos fora do regime CLT. Eles se sentem excluídos das políticas sociais federais, elogiam muito o programa estudantil Pé-de-meia e, embora gostem do refinanciamento de dívidas Desenrola, acham que ele é uma boia salva-vidas, não uma solução.

Quando confrontados apenas com as opções Lula e Bolsonaro, o tom das críticas ao presidente se atenua. Flávio Bolsonaro é enxergado pelos entrevistados como um candidato dependente do pai e cuja campanha reforça a polarização tóxica.

A postura do governo frente ao tarifaço norte-americano rende pontos entre os eleitores arrependidos dos dois lados. A percepção é que Lula passa a imagem de que está defendendo os interesses do Brasil sem brigar abertamente com os EUA. Todos foram unânimes na ojeriza às agressões do presidente argentino Javier Milei a Lula.

Nas conversas, Flávio está identificado diretamente com os escândalos Vorcaro e rachadinha, o que tira dele o discurso anticorrupção do antipetismo que funciona desde os tempos do Mensalão.

- Um ponto que sempre favoreceu a direita contra a esquerda, a defesa da família, perde força com Flávio. No campo das ideias, a família é o símbolo do almoço de domingo, do esforço coletivo pelo bem comum. Com Flávio, para os eleitores desta pesquisa, se sobressai a proteção dos interesses da própria família Bolsonaro - diz Sincofsky.

Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola - Foto: Reprodução / Redes Sociais
Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola - Foto: Reprodução / Redes Sociais

5. Lula perde o seu filtro

Nos últimos onze anos, existiam duas formas de conversar por telefone com Luiz Inácio Lula da Silva. A mais recente e difícil é por meio da primeira-dama Janja da Silva, que odeia interromper o pouco tempo que o casal tem isolado. O mais antigo e eficiente era através de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Mestre em ciências políticas, 40 anos, Marcola era o filtro do poder, bajulado por ministros e empresários que só por meio dele poderiam chegar ao presidente. Não mais.

Na segunda-feira (3), o repórter Nino Guimarães, do jornal digital Poder360, revelou que a lobista Roberta Luchsinger pagou contas pessoais de Marcola por mais de dois anos. Em nota oficial, ele disse ter devolvido R$ 249 mil, que seria o valor emprestado com juros.

Luchsinger é amiga próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, e era contratada por Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", para ampliar seus negócios no governo Lula. Antunes está preso desde setembro como o cérebro da fraude de mais R$ 6 bilhões contra aposentados do INSS. Em dezembro, a PF quebrou os sigilos telefônicos e bancários de Luchsinger. Só neste ano, depois da ação da PF, Marcola se mexeu para pagar a dívida.

Marcola contou o episódio a Lula apenas em julho. Segundo duas pessoas próximas, a reação do presidente foi de desapontamento. Na semana seguinte, ele foi demitido e transferido para a campanha. Com a divulgação do caso, ele deixou a campanha. Não voltará ao governo.

Por três anos e meio, Marcola ocupou uma sala de 30 metros quadrados no terceiro andar do Palácio do Planalto, a única com um corredor ligado diretamente ao gabinete do presidente. Através da sala ocupada pelo chefe de gabinete, é possível chegar ao presidente sem precisar de agenda ou passar pelas secretárias e ajudantes de ordem. Foi a tática usada, por exemplo, em dezembro de 2024 pelo ex-ministro Guido Mantega quando levou o banqueiro Daniel Vorcaro para uma visita ao Planalto. A audiência marcada inicialmente com Marcola, terminou com a presença de Lula, de dois ministros e um diretor do Banco Central.

6. Rubio é um novo Braden

Em 1946, o embaixador norte-americano em Buenos Aires, o lobista Spruille Braden, divulgou um relatório em que registrava as relações do candidato a presidente Juan Domingo Perón com o fascismo. Chamado de "livro azul", o documento pretendia impedir a eleição de Perón, um coronel reformado extremamente popular com os descamisados argentinos. Deu tudo errado. Perón transformou o ataque numa ameaça intervencionista e como slogan "Braden ou Perón" foi eleito com 53% dos votos.

Em 2026, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, é um candidato a Braden.

Na sexta-feira (8), o Departamento de Estado indicou a jornalistas que tomará nesta semana novas medidas contra o Brasil. O saldo da semana passada foi o corte de um terço da cota de exportação de açúcar brasileiro e a revogação do visto diplomático da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, menos de duas semanas depois de o Itamaraty negar o visto a funcionários americanos que viriam ao país questionar as eleições brasileiras.

Entre as novas medidas especuladas estão a volta da Lei Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, a expulsão da embaixadora Viotti e novas medidas de pressão comercial. Desde julho, mais de 3.900 produtos brasileiros sofrem uma sobretaxa de 37,5% para entrar nos EUA, segundo maior tarifaço do mundo depois da China.

De forma displicente, o presidente Lula disse numa entrevista na quarta-feira (5) ao canal de YouTube "Os Três Elementos" que pretende telefonar para Donald Trump para tentar uma trégua. Será difícil. Um dos favoritos para a sucessão de Trump em 2028, o secretário de Estado Marco Rubio é o capitão por trás da política de canhoneiras contra o Brasil.

Na sexta-feira (7), em discurso em São José dos Campos (SP), o presidente Lula disse que Rubio "odeia o Brasil" e que é um "latino-americano frustrado":

- Agora ele (Trump) tem um cidadão que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina e que é um bolsonarista, que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio. Ele não gosta, eu disse para o Trump, ele não gosta do Brasil.

É ingenuidade imaginar que o Departamento de Estado ignora que essas ações intervencionistas ajudam o discurso nacionalista de Lula e prejudicam Flávio Bolsonaro. Sabe e não se importa. Se Flávio de fato perder em outubro, é um efeito colateral. O relevante é gerar a imagem de que Rubio está recuperando o continente para o controle americano, enfrentando a influência chinesa.

O governo Trump demorou um ano e meio para indicar um novo embaixador para Brasília. Depois, anunciou o nome do deputado Daniel Perez sem a tradicional consulta ao Itamaraty, um gesto de desprezo. A reação brasileira, de demorar para dar o aceite ao nome sugerido, é uma grosseria normal nesses casos. Os EUA fazem isso hoje com o indicado do governo Macron para a embaixada francesa. A tréplica norte-americana, a revogação do visto de Viotti, foi um ato explícito de hostilidade. Supor que o Brasil vá, por isso, apressar a aceitação de Perez é desconhecer o orgulho natural de um país como o Brasil.

Desde que Trump tomou posse, candidatos pró-EUA venceram na Bolívia (Rodrigo Paz), Honduras (Nasry Tito Asfura), Costa Rica (Laura Fernández), Chile (José Antonio Kast), Colômbia (Abelardo de la Espriella) e Peru (Keiko Fujimori). Graças às ameaças americanas, Javier Milei sobreviveu às eleições legislativas. O Panamá cancelou seu acordo de operação do canal com uma empresa chinesa, o Paraguai assinou um acordo para receber bases militares americanas e o México mudou sua política de repressão ao tráfico na fronteira. A joia da coroa é a captura de Nicolás Maduro e sua substituição por Delcy Rodríguez. Como mostrou o The New York Times, Rodríguez governa telefonando semanalmente para Rubio.

Falta o Brasil.

No início do século 20, o lema da política dos EUA para a América Latina era a frase atribuída a Theodore Roosevelt "fale suave e carregue um porrete na mão". Com Rubio, os EUA só trazem o porrete.

Senador Cleitinho, durante sessão do Senado - Foto: Carlos Moura/Agência Senado
Senador Cleitinho, durante sessão do Senado - Foto: Carlos Moura/Agência Senado

7. 'Se eu mudar de ideia de novo, vou ser crucificado'

No sábado de madrugada, depois da enésima reviravolta sobre sua candidatura ao governo de Minas Gerais, o senador Cleitinho Azevedo me enviou um áudio:

- Se eu mudar de ideia de novo, vou ser crucificado em praça pública. Essa vai ser a eleição mais maluca do país. Aliás, já está sendo.

Irritado com as cinco mudanças de posição de Cleitinho em uma semana, o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, só autorizou a candidatura depois que o senador disse que fará campanha sem dinheiro do partido. Na pesquisa de julho, o senador liderava com folga:

  • Cleitinho Azevedo (Republicanos): 35%
  • Alexandre Kalil (PDT): 12%
  • Patrus Ananias (PT): 10%
  • Mateus Simões (PSD): 6%
  • Gabriel Azevedo (MDB): 4%
  • Bem Mendes (Missão): 2%
  • Flávio Roscoe (PL): 2%

Minas terá uma eleição de dois mundos paralelos, a disputa presidencial e a estadual. Os candidatos Patrus Ananias e Flávio Roscoe só estão na disputa para dar palanque, respectivamente, para o presidente Lula e Flávio Bolsonaro. Ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo é, de fato, candidato a prefeito em 2028.

Já Cleitinho, Kalil e Simões farão campanhas independentes das presidenciais. No Triângulo Mineiro farão dobradinha com Bolsonaro. No Vale do Jequitinhonha e na Zona da Mata, com Lula. Será a repetição da subversão das ordens partidárias do Lulécio (voto em Lula e Aécio Neves em 2006), Dilmasia (Dilma Rousseff e Antonio Anastasia em 2010) e Luzema (Lula e Zema em 2022). Se for conveniente aos três serem neutros, também serão.

E num eventual segundo turno? Vão responder que aceitam o apoio, mas que Minas está acima de tudo. Parece hoje ilusão que um dos três vá se empenhar por Lula ou Bolsonaro. Como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, "ninguém sabe Minas. A pedra, o buriti, a carranca, o nevoeiro, o raio selam a verdade primeira, sepultada em eras geológicas de sonho. Só mineiros sabem. E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo chamado Minas".

O zigue-zague de Cleitinho atordoou a política nacional, mas é tão mineiro quanto goiabada cascão. Indeciso se seria ou não candidato a senador em 1974, Itamar Franco perdeu o horário para se registrar. Como me contou décadas depois rindo, seus correligionários alteraram o relógio do cartório para antes da meia-noite para ele poder ser candidato e ser eleito. Em 1982, Tancredo Neves mudava de ideia como nuvem temendo o risco de deixar o Palácio da Liberdade para ser candidato a presidente.

Mesmo o eleitor mineiro é mutável. Os raros casos de candidatos a governador que tiveram menos votos no segundo turno que no primeiro foram em Minas: Hélio Costa em 1992 e Anastasia em 2018. Minas é emoção garantida.

8. Crítica: 'Brizola, o lobisomem contra o império'

Perto do Natal de 1963, com os preços subindo mais de 60% no ano e o crescimento econômico caindo de 6% para menos de 1%, muros do Rio de Janeiro amanheceram pichados com a frase "Contra a inflação, Brizola é a solução". O ministro da Fazenda Carvalho Pinto, nomeado menos de seis meses antes numa tentativa do presidente Jango Goulart de se reaproximar do empresariado, estava demissionário. Governador do Rio Grande do Sul, cunhado do presidente e líder do movimento legalista que permitiu a posse de Jango depois da renúncia de Jânio Quadros, Brizola (1922-2004) impôs condições para assumir o ministério para o qual não havia sido convidado.

Numa conversa com um incrédulo Jango, Brizola, que já havia manobrado para indicar o ministro da Marinha, queria indicar também como novo chefe de Exército, o marechal Teixeira Lott. O seu receituário econômico para o Ministério da Fazenda era a moratória da dívida externa, controle de preços no setor de alimentos, intervenção no câmbio, restrição na remessa de lucros para o exterior e manutenção dos investimentos públicos. Entre se tornar uma rainha da Inglaterra do cunhado e virar refém dos militares e da maioria conservadora no Congresso, Jango tentou um zigue-zague. Nomeou o inexpressivo Ney Galvão para a Fazenda e o general Jair Dantas Ribeiro para o Exército e achou que poderia se equilibrar, ora acenando com promessas de reforma para a esquerda, ora se colocando como o freio do radicalismo para a direita. Foi derrubado em pouco mais de três meses.

O mundo paralelo em que Brizola viraria ministro da Fazenda é lateral no primeiro volume da biografia "Brizola, o lobisomem contra o império" (editora Companhia das Letras, 433 páginas; livro: R$ 91,69; e-book: R$ 39,90), da jornalista Karla Monteiro, mas é exemplar das mil faces do político gaúcho.

Monteiro tece com maestria a trajetória desse Brizola multifacetado desde as cicatrizes abertas pelas guerrilhas do Rio Grande do Sul no final do século 19. Filho de um líder maragato morto na revolta de 1925, Brizola terminou como herdeiro político do chimango Getúlio Vargas. Pobre de só conhecer pasta de dentes aos 13 anos, casou-se com a herdeira de uma família de latifundiários. Corajoso a ponto de arriscar a vida para dar posse ao cunhado, abusou da gratidão para empurrar o governo para um confronto perdido. Denunciador de primeira hora dos golpistas da União Democrática Nacional, negociava a chegada de armas de Cuba quando ocorreu o golpe de 1964. Qualificado pelo Washington Post de "pior que Fidel Castro" em 1962, quando, como governador do Rio Grande do Sul, estatizou a companhia telefônica americana, sobreviveu parte do exílio nos EUA.

Ao longo da história camaleônica de Brizola desfilam deputados eleitos pelo voto e que defendem o golpe de Estado, embaixadores dos EUA interferindo na eleição brasileira, populistas sem projeto, políticos que traem aliados como quem troca de camisa, esquerdistas hipócritas e corruptos, direitistas hipócritas e corruptos e muitos que defendem soluções fáceis (e erradas) para problemas complexos. A biografia de Brizola perpassa os dramas da política brasileira do século 20 e mostra, no século 21, que os nossos problemas não são novos. Apenas envelheceram. Os personagens é que ficaram menos interessantes.

9. Crítica: 'Chame o Ladrão'

"Chame o Ladrão - Como os artistas driblaram a censura do governo militar" (Editora Record, 182 páginas; livro: R$ 59,75; e-book: R$ 39,90), do jornalista e cineasta Miguel de Almeida, é um livro de esperança. Mostra como mesmo sob a censura mais brutal do regime militar, compositores, diretores de cinema e jornalistas inventaram brechas para fazer suas obras chegarem ao público, como se enfrentar o arbítrio fosse um desafio artístico a mais no processo de criação.

"Se não pode passar pela porta, passe pela janela", escreve Almeida.

O livro pode ser lido como uma coletânea de episódios pitorescos. O título do livro foi tirado de uma música que Chico Buarque, o cantor mais vigiado dos anos 1970, inventou ter sido composta por um certo Julinho da Adelaide. "Terra em Transe", o filme de Glauber Rocha de 1967, foi liberado porque o censor considerou que era "tão complicado que ninguém vai entender nada". As cenas de sexo do filme "Dona Flor e seus Dois Maridos" foram liberadas porque o produtor Luís Carlos Barreto conseguiu a ajuda da filha do presidente Ernesto Geisel e atropelou a decisão do ministro da Justiça de cortar doze cenas do longa-metragem.

Escritos com elegância e leveza, os episódios do livro não escondem o despotismo, a paranoia e a truculência dos que se assumiram guardiões do que o público pode e não pode saber. A janela é uma opção, mas a porta precisa estar aberta.

10. Fique atento

  • Marco Rubio prepara novas medidas para pressionar o Brasil, enquanto Lula tenta um contato direto com o presidente Donald Trump.
  • Nesta segunda-feira, sindicatos promovem atos para pressionar o Senado a votar o fim da escala 6x1.
  • Sabe aquele esforço concentrado do Congresso marcado para a semana que vem, com deputados em Brasília? A Câmara mudou para sessões remotas. Devem ser votados os projetos que renegociam R$ 100 bilhões em dívidas de produtores rurais e a manutenção do subsídio de combustíveis em função da guerra no Irã.Na terça-feira (13), o Banco Central divulga a ata da reunião que cortou 0,25 ponto percentual nos juros. O mercado vai procurar com lupa pistas sobre a reunião de setembro.
  • O ministro Luiz Fux, do STF, convocou para quarta-feira (13) nova audiência de conciliação entre o Distrito Federal e a União para discutir a salvação do Banco de Brasília.
  • A direção da rede social Discord tenta um acordo com a Advocacia-Geral da União para evitar o pedido de proibição de funcionamento no país, defendido pela primeira-dama Janja da Silva.
  • Na quarta-feira (12) encerra o prazo dado pelo presidente do STF, Edson Fachin, para que interessados se manifestem sobre a súmula para conter pautas-bomba. O julgamento será em setembro.
  • Começou a correr o prazo do ministro Gilmar Mendes para os senadores Lindbergh Farias e Soraya Thronicke apresentarem explicações sobre a notícia-crime que acusa o candidato a vice-presidente do bolsonarismo, Alfredo Gaspar, de estupro. Gaspar pediu a Gilmar Mendes para a apresentação de um exame de DNA. O ministro negou, sob o argumento óbvio de que não se trata de uma investigação de paternidade.
  • A Polícia Federal vai intimar o ex-chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, para prestar depoimento. Ele está envolvido em duas investigações que apuram a atuação da lobista Roberta Luchsinger e do filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva.
  • Com a terceira tentativa de delação de Daniel Vorcaro em curso, a campanha de Flávio Bolsonaro e Brasília entram em estado de alerta permanente.
  • Bombeiros tentam uma trégua entre o ministro André Mendonça, do STF, e Andrei Rodrigues, da PF, que assegure a continuidade das investigações dos inquéritos do Master e do INSS.
  • Na quinta-feira (13), os eleitores do distrito de Clacton-on-Sea, na costa leste da Inglaterra, decidem em uma eleição suplementar se legitimam a manobra do extremista de direita Nigel Farage, suspeito de corrupção, do partido Reform UK, ou elegem o outsider Count Binface ("Conde Cara de Lixeira"), do planeta Sigma IV.
  • Se sobreviver ao ataque especulativo, Alfredo Gaspar apresenta na quinta-feira (13) o programa de governo de Flávio Bolsonaro.
  • Termina no sábado (15) o prazo para registro de candidaturas. Até lá, o senador Cleitinho Azevedo ainda pode mudar de ideia sobre ser ou não ser candidato a governador de Minas.
  • Na sexta-feira (14), sai nova pesquisa presidencial Quaest.
  • O PT faz esforço monstro para reunir milhares de pessoas no primeiro comício de Lula, no domingo (16), no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, palco das mobilizações sindicais dos anos 1970.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/thomas-traumann/coluna/2026/08/pesquisa-quaest-so-11percent-priorizam-impeachment-no-stf-ao-escolher-senador.ghtml