Há semanas, Flávio Bolsonaro movia-se leve e solto, e as pesquisas indicavam seu ligeiro favoritismo
Por Carlos Melo
A política é soberana, desafia o senso comum, desautoriza especialistas apressados e oráculos de botequim. Compreende uma vertiginosa associação de variáveis distintas, além da imprevisível conduta dos atores. Nada sendo constante, não permite antecipar resultados. É produto da ação social.
Há semanas, Flávio Bolsonaro movia-se leve e solto, e as pesquisas indicavam seu ligeiro favoritismo. Já o presidente Lula vivia novo ciclo de desgaste; dúvidas sobre sua candidatura pairavam no ar seco de Brasília. Mas a revelação das relações perigosas de Flávio iniciou uma inflexão nas curvas dos gráficos das pesquisas. Para piorar, a imprudência de sua trupe, nos Estados Unidos, disparou um tiro de bazuca nos pés do senador.
A comédia de erros, associada aos ressentimentos familiares, despertou a sensação de que, sem controle, a hemorragia pode se agravar. O processo abalou as esperanças do bolsonarismo. Fora dele, fica o sentimento de que, se a ação presente o condena, o zelo com o futuro não pode recomendá-lo.
Hoje, o filho de Jair Bolsonaro cai nas pesquisas, sem despencar. É o suficiente para que o Centrão o abandone, mas pouco para ser substituído no campo conservador, com menor comprometimento político e moral. O bolsonarismo é fenômeno consolidado tanto quanto o lulismo. Seu teto é baixo, mas o piso permanece elevado. O sobrenome natural foi patenteado como patrimônio eleitoral e não será repassado a terceiros.
A perspectiva de vitória de Lula mostra-se mais robusta do que há alguns meses. Não fossem a autonomia da política e sua mania de conduzir ao erro, a reeleição já estaria definida.
Mas qual lance genial, estratégia ou projeto de governo contribuiu para mudar o quadro? Há políticas públicas e medidas emergenciais importantes; o controle sobre a máquina pública é sempre uma vantagem. No entanto não configuram um projeto articulado política, econômica e socialmente. A ação do governo nem sequer resvala nisso. Resta a percepção de que Lula é um sujeito de sorte, favorecido, sobretudo, pelos erros do adversário.
A equivalência entre as duas gestões é injusta, mas Lula se diferencia, basicamente, por não ser Jair Bolsonaro. Já é um ativo eleitoral, pouco, no entanto, para dissipar desconfianças, expressar sonhos ou esperanças em períodos de desalento. Não aponta para novo mandato com governabilidade, capacidade de agenda e transformações necessárias. Na limitação dos horizontes políticos, governo e partido parecem perdidos e sem imaginação.
Como Bolsonaro, Lula tem um alto piso de votos. Seu teto se eleva menos por mérito do governo do que por danos causados ao país (e a si mesmos) pelos adversários.
Nesse ambiente de volatilidade, uma parcela - menor, mas decisiva - do eleitorado também oscila na vibração das ondas de comunicação, qual plumas ao vento. Mesmo com o bônus do caos bolsonarista, o governo não está livre de constrangimentos e desgastes que agudizem o mau humor e a dúvida nesse perfil de eleitor. A reta final de campanha, sempre perigosa, pode redefinir o placar, sem chances de reação.
Vantagens obtidas apenas pelos erros do adversário iludem. O antipetismo, circunstancialmente minoritário, aposta nas viradas de jogo por meio de escorregões do presidente; comprometimento de aliados; soberba do "já ganhou" e a perspectiva de poder continuado, que potencializa vaidades. E, claro, pela ingenuidade dos que se encantam com holofotes.
O sábio cresce na observação. Prudente, assimila lições no leite derramado pelos outros; antecipa-se às armadilhas e torna sua ação política soberana. Tolo é aquele que só aprende com os próprios erros.
*Carlos Melo, cientista político, é professor e coordenador do Observatório da Política do Insper
O Globo
https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2026/07/politica-desautoriza-especialistas-apressados.ghtml





