Para Rubens Barbosa, medidas de apoio a empresas serão cruciais porque um grupo será muito afetado Silvia Constanti/Valor |
Ex-embaixador nos EUA não vê espaço para Brasil retaliar Trump: 'Não é uma negociação, é uma imposição'

Ex-embaixador nos EUA não vê espaço para Brasil retaliar Trump: 'Não é uma negociação, é uma imposição'

Rubens Barbosa vê imposição de tarifas como exercício de poder dos Estados Unidos sobre o Brasil e diz que declaração de Rubio marca interferência na política interna


Por João Sorima Neto - São Paulo

O diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington e Londres, e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, vê o tarifaço de Donald Trump como uma imposição de força - não uma negociação - da maior economia do mundo ao Brasil.

Para ele, há um componente novo nessa decisão: o político. Barbosa vê a nota do secretário de Estado americano, Marco Rubio, como o primeiro passo dessa escalada política ao criticar diretamente o presidente Lula. E essa tensão pode ser potencializada se o Brasil decidir adotar a Lei de Reciprocidade.

Ele avalia que, se esse cenário se concretizar, haverá resposta ainda mais forte dos americanos, afetando a economia e as empresas brasileiras. Veja trechos da entrevista.

Qual é o contexto deste tarifaço? Há mudança na forma como EUA e outros países conduzem negociações?

Essa medida americana, que já havia sido tomada ano passado pelo Trump (e foi derrubada pela Suprema Corte americana porque não havia base legal) é para proteger o mercado americano, para reduzir o desequilíbrio na balança comercial, para impedir o avanço da China, para facilitar o investimento nos EUA.

E como não há regras, não há Organização Mundial do Comércio (OMC), não há Organização das Nações Unidas (ONU), não há nada, existe uma situação de poder, inclusive na área comercial. Agora, foi feita uma investigação pelos EUA sobre as práticas comerciais adotadas pelo Brasil.

O Brasil apresentou sua defesa, dentro do que podia fazer, assim como outros países, mas não adiantou absolutamente nada. Então não é uma negociação, mas uma imposição dos EUA.

Como o senhor classifica essa posição do governo americano?

O que está acontecendo é uma violência protecionista, unilateral. Nenhum país, nem a China tem força para impedir isso. Os EUA são o maior mercado do mundo, a maior economia. Agora, por que o Brasil está sendo singularizado? Por que outros países da América Latina têm 10%, 15%, 20% de tarifa e o Brasil tem 25% e vai ter mais 12,5% relacionados à falta de fiscalização do trabalho forçado? Isso tem a ver com o contexto da Lei de Segurança Nacional americana.

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Por quê?

Os americanos, pela primeira vez na História, colocaram a América Latina como principal interesse deles, como área de influência. O único país que tem condição de se opor aos EUA na região, como de fato está fazendo, é o Brasil. Por isso, o país está sendo singularizado.

Não oferecemos o que outros países ofereceram. No caso do etanol, o Reino Unido abriu o mercado britânico para o etanol americano. O Brasil se recusou a fazer isso. Eles pediram abertura unilateral em outras áreas e também recusamos. Não se pode abrir todos os setores assim, porque vai quebrar tudo o que é empresa por aqui.

Então temas como Pix, desmatamento, combate à corrupção não influenciaram na decisão dos EUA?

Pix, desmatamento, isso não teve a menor importância. O que ainda pode ter importância são as big techs. Houve uma crítica na nota que o governo soltou sobre o tarifaço citando diretamente as big techs, que avaliam que decisões do Supremo e do governo brasileiro foram uma restrição à liberdade de expressão. Mais para frente, na eleição, isso pode dar problema.

Como exatamente?

Essa nota do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, (que fez críticas diretas ao presidente Lula) é a primeira manifestação formal de interferência na política interna brasileira. Está chamando o Lula de egoísta, que não cuida dos interesses da população. E isso é política interna brasileira.

Na minha visão, pode haver interferência das big techs, da mídia social americana da direita, da extrema direita, na desinformação aqui no Brasil durante a eleição.

A manifestação de Rubio trouxe um componente novo?

Sim, foi introduzido um componente político na relação Brasil-EUA que não existia. A nota do Marco Rubio, ao criticar Lula, foi o primeiro passo. A réplica do Mauro Vieira (ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que disse que as críticas foram feitas de "forma grosseira e arrogante") é uma escalada na crise.

E a possibilidade de o Brasil usar a Lei de Reciprocidade, impondo tarifas sobre produtos americanos?

É outra coisa grave e preocupante a ameaça de retaliação. O Brasil não tem cacife para retaliar os EUA. Nenhum país do mundo, nem a Índia, nem a União Europeia, ninguém retaliou. A China retaliou no início, mas voltou atrás. Se o Brasil retaliar, vai haver contrarretaliação que pode afetar qualquer coisa aqui.

É muito preocupante, porque pode afetar a economia e as empresas brasileiras. Eles (o governo) têm 30 dias para analisar. Espero que o bom senso prevaleça.

Quais as consequências desse cenário comercial?

A economia americana está crescendo, a inflação está caindo, os EUA aumentaram a receita. Agora, a guerra no Irã está causando mais prejuízo. No caso do Brasil, US$ 11 bilhões em exportações serão afetados, segundo a Amcham. Houve um aumento das exceções e isso foi uma negociação empresarial entre as empresas brasileiras e americanas, na minha visão.

Alerta: Indústria diz que tarifaço dos EUA prejudica competitividade brasileira e ameaça exportações
Haveria prejuízo nesses 2.100 produtos, que deixariam de ter competitividade para serem exportados aos EUA. Isso abrange, sobretudo, máquinas e equipamentos. São produtos feitos sob medida, que não se pode exportar para outro lugar. Mas o governo brasileiro está dizendo que vai dar um apoio a estes setores. Isso é importante, porque vai haver um grupo de empresas muito afetado.

Como esse ambiente comercial e a incerteza geopolítica afetam a economia global?

Os dados do FMI mostram que não está havendo desaceleração no comércio global. A economia mundial está crescendo 3%, o comércio está crescendo, os países estão se ajustando. O Brasil está questionando, está brigando, está tendo narrativa política, de soberania, e não está pensando nos ajustes.

Do ponto de vista macroeconômico, o efeito (do tarifaço) para os Estados Unidos é pequeno, porque nossas exportações para eles são pequenas. O efeito vai ser microeconômico, vai ser em cima das empresas.

O Globo
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/17/ex-embaixador-nos-eua-nao-ve-espaco-para-brasil-retaliar-trump-nao-e-uma-negociacao-e-uma-imposicao.ghtml