Caso seja eleito para seu quarto mandato, o petista tem sinalizado nos bastidores que quer um legado que vá além do 'presidente dos programas sociais', mas também começa demonstrar maior preocupação com alta da dívida pública
Fabio Graner
A liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas eleitorais tem ampliado os questionamentos no mercado e no empresariado sobre o que viria a ser a política econômica em um eventual quarto mandato do petista, em especial a sempre questionada condução fiscal. A falta de clareza sobre os rumos que serão adotados por Lula, caso seja reeleito, ainda é grande, mas nos bastidores, as teses de interlocutores e auxiliares dele vão ganhando corpo e disputando espaço.
Lula tem sinalizado a pessoas próximas que gostaria que seu último mandato tivesse foco em deixar um "legado", o que significaria não querer ser apenas conhecido como o presidente dos programas sociais. A lógica, segundo um interlocutor, seria a implementação de uma estratégia focada em ampliação significativa de investimentos (seja na fronteira de minerais críticos, seja na transição energética) e na universalização da educação em tempo integral, entre outros aspectos.
Por outro lado, interlocutores apontam que o presidente tem demonstrado maior preocupação com o crescimento da dívida pública, o volume de despesas obrigatórias e já indica querer encontrar uma estratégia mais efetiva para conter o endividamento e melhorar a trajetória fiscal. A conciliação desses objetivos não é fácil. E faltando três meses para as eleições, os interlocutores pisam em ovos para sinalizar medidas, temendo repercussões negativas.
O debate sobre o fiscal
Seja como for, há no governo uma ala que defende a tese de que é preciso dar um sinal mais forte de contenção fiscal, especialmente no primeiro ano do próximo governo, para que se consiga construir um novo mandato com menos pressão do mercado financeiro. A lógica nesse grupo é que se consiga chegar na metade final com capacidade de acelerar a atuação fiscal sem piorar a chamada "curva de juros" (as taxas cobradas para as emissões de títulos ao longo do tempo).
O projeto de LDO para 2027 sinaliza um pouco isso ao indicar um crescimento menor de despesas totais, de 1% acima da inflação. Ainda assim, esse resultado é mais reflexo das novas regras de precatórios do que qualquer outra coisa, dado que a despesa sujeita ao teto continua seguindo em alta de 2,5%. Aí que está um dos grandes pontos de indefinição para o período a partir de 2027.
A ala que defende começar um eventual novo mandato com sinal mais forte de austeridade entende que deveria haver alguma redução nesse limite. Isso também tiraria pressão de contas como a Previdência, dada a nova regra aprovada em 2024. Mas esse movimento isoladamente não seria suficiente porque é preciso uma revisão de alguns programas sociais, em especial o BPC, que cresce em ritmo explosivo, para diminuir a pressão de despesas obrigatórias sobre os gastos livres do governo. No flanco da Previdência, há clareza que, qualquer coisa que for discutida, precisa envolver uma revisão mais incisiva do extremamente generoso sistema dos militares.
Outras fontes, porém, avaliam que não será preciso apertar a regra do teto e ponderam que a trajetória delineada no PLDO é suficiente para entregar um cenário fiscal de médio prazo melhor para o país e ainda permitir ao governo executar seus planos. Ainda assim, há também uma leitura de que serão necessárias algumas medidas que contenham a trajetória de uma parte das despesas obrigatórias e deem maior flexibilidade para a gestão orçamentária, em linha com o que foi feito no fim de 2024 e que está rendendo frutos importantes.
Corre por fora na disputa pelo coração de um quarto governo Lula o petismo mais raiz, que já vê um ambiente restritivo mesmo no atual modelo preconizado pelo arcabouço fiscal em vigor. Nesse sentido, há setores que apontam que o desenho atual trava investimentos públicos e mais ações do governo e, sem a possibilidade de Lula buscar uma nova reeleição, esse caminho poderia ser seguido para gerar o tal "legado" que o presidente quer deixar.
Não há indícios fortes, porém, nesse momento, de que essa tese tenha favoritismo de Lula, em um contexto no qual ele se mostra inquieto com o nível de dívida do país. Ainda assim, não se pode descartar essa opção.
O caminho a ser escolhido dependerá não só da tônica dos debates e costuras políticas ao longo das eleições, mas, principalmente, do quadro econômico que emergirá no fim do ano, incluindo os ventos externos, considerados determinantes para os rumos dos ativos financeiros.
Via arrecadatória permanecerá
Seja como for, um eventual processo de ajustamento mais significativo caso Lula seja reeleito deve ser vendido com um escopo mais amplo de medidas mirando o chamado "andar de cima". Se houver medidas de revisão de gastos sociais, também serão novamente apresentadas propostas mirando super salários no setor público, penduricalhos, tributação sobre os mais ricos, entre outras iniciativas que garantam um discurso de que todo mundo terá que dar uma cota de sacrifício para melhorar as contas e a capacidade de investimento do estado.
Na prática, uma embalagem para esse programa seria de reforma do estado, que incluiria também uma estratégia mais agressiva de redução dos chamados "gastos tributários". A lógica, segundo um interlocutor, seria centrar foco naqueles considerados benefícios "gratuitos" e que atingem poucas empresas, sem um retorno efetivo para a economia.
De toda forma, a leitura é de que é preciso fazer uma ampla revisão e redução dessas renúncias de receitas, de forma a melhorar a posição fiscal do país mais rapidamente e garantir um discurso de que todo mundo tem que dar sua contribuição.
O que parece certo é que, mesmo que haja um aperto maior no começo de um quarto mandato 2027, a lógica de um Estado indutor, que articula e direciona parte do processo econômico por meio de gastos públicos, mas também medidas de crédito e regulatórias, continuará presente na gestão lulista.
O Globo
https://oglobo.globo.com/economia/fabio-graner/post/2026/07/os-sinais-de-bastidores-sobre-a-politica-economica-em-um-eventual-quarto-mandato-de-lula.ghtml





