Ferrovias no Brasil: muita carga e pouco trilho

Ferrovias no Brasil: muita carga e pouco trilho

Por Thiago Guilherme Péra, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP

Gostaria de poder escrever sobre um Brasil com uma malha ferroviária robusta, onde ferrovias cortam o território nacional transportando cargas de forma eficiente e sustentável. Infelizmente, a realidade é o oposto, temos muita carga para transportar e pouco trilho para fazê-lo. O país convive com um paradoxo logístico, no qual produzimos volumes recordes, principalmente no agronegócio, mas continuamos cada vez mais dependentes do caminhão para escoar essa produção. O título deste artigo poderia ser "muito trilho, pouca carga", se estivéssemos alinhados às melhores práticas mundiais.
As vantagens do transporte ferroviário são indiscutíveis. Uma composição ferroviária comporta entre 70 e 130 vagões, cada um carregando de 70 a 120 toneladas - uma capacidade que retira centenas de caminhões das rodovias em uma única viagem. Enquanto um caminhão graneleiro transporta apenas 30 a 40 toneladas, consumindo cerca de um litro de diesel a cada dois quilômetros, as ferrovias operam com uma eficiência energética 2,5 vezes superior e emitem 40% a 60% menos gases de efeito estufa por unidade transportada. São estatísticas que representam um caminho para a descarbonização do setor de transportes, a redução significativa dos custos logísticos nacionais e o desenvolvimento econômico.

Esses números bastariam para justificar investimentos vultuosos em ferrovia suficientes para diversificar a matriz de transporte. Mas não é o que acontece.

Um retrato desolador quando comparamos o Brasil com o restante do mundo, principalmente países de dimensões continentais. Os números internacionais são impiedosos com nossa realidade. Enquanto a China possui 9,5 km de ferrovia por mil km² de área superficial e os EUA têm 23 km por mil km², o Brasil conta com apenas 3,5 km por mil km². Países africanos apresentam configurações semelhantes às nossas - linhas que simplesmente conectam o interior aos portos, sem formar uma malha integrada e densa. Estamos presos na primeira fase do desenvolvimento ferroviário, as chamadas "linhas de penetração". Não temos uma rede, temos linhas isoladas. E o preço dessa limitação é alto.

Quando analisamos o que realmente trafega em nossos trilhos, descobrimos uma concentração preocupante, 75% de todo o volume ferroviário é minério de ferro. O agronegócio representa apenas 20% das movimentações ferroviárias, com os grãos correspondendo a 10% e o açúcar a meros 3,1%, tendo os contêineres representação de apenas 1,2% do volume ferroviário total. Essa concentração excessiva em uma única commodity torna nosso sistema bastante vulnerável e ineficiente.

Aqui reside um dos aspectos mais preocupantes. Embora o setor de grãos tenha sido o que mais cresceu em volume ferroviário entre 2010 e 2024 - saltando de 23 milhões para pouco mais de 50 milhões de toneladas, esse crescimento foi insuficiente para diversificar nossa matriz de transporte. De acordo com dados do Esalq-Log, a dependência de caminhões para o transporte de soja para exportação saltou de 44% para 47% entre 2010 e 2023, enquanto a participação ferroviária despencou de 47% para 33,4%. Quando se analisa o mercado doméstico, praticamente mais de 97% dos grãos são movimentados por caminhão.

Na prática, o Brasil vai na contramão até mesmo dos planos nacionais de infraestrutura e logística, que almejam maior participação de modais de longo curso na nossa matriz de transportes. Qual o custo econômico, social e ambiental da falta de infraestrutura ferroviária no país?

Em uma pesquisa recente do Esalq-Log foi possível avaliar diferentes cenários até 2035 e 2050 da expansão ferroviária.

Do ponto de vista econômico, a expansão ferroviária geraria economias anuais de frete entre R$ 8,74 bilhões e R$ 40,10 bilhões, com ganhos acumulados de PIB entre R$ 13,6 bilhões e R$ 74,7 bilhões até 2035, e entre R$ 41,6 bilhões e R$ 232,3 bilhões até 2050. Para cada R$ 1,00 investido em transportes, o país acumula de R$ 0,60 a R$ 2,00 de PIB adicional em 2035 e entre R$ 2,00 e R$ 6,00 em 2050, a depender da trajetória escolhida de crescimento ferroviário. A expansão ferroviária gera mais arrecadação, mais investimento privado induzido e mais renda, sem exigir novos tributos e sem comprometer o crescimento produtivo. O montante arrecadatório pode variar de R$ 0,9 a R$ 5,6 bilhões até 2035 e variar de R$ 2,3 a R$ 14,3 bilhões até 2050 com o crescimento ferroviário.

Do ponto de vista ambiental, a migração de carga do modo rodoviário para o ferroviário evitaria entre 2,5 milhões e 8,3 milhões de toneladas de CO₂ ao ano a partir de 2035, representando redução entre 2,7% e 9,2% das emissões do setor de transportes de cargas. Num momento em que a pressão internacional por descarbonização das cadeias produtivas cresce de forma acelerada, a ferrovia é uma resposta.

Do ponto de vista social, o custo é talvez o mais subestimado de todos. A falta de ferrovia não prejudica todos da mesma forma, pois penaliza de maneira desproporcional quem tem menos: o agricultor recebe menos pela produção porque o frete corrói sua margem, a família paga mais pelo alimento porque o custo logístico está embutido em cada etapa da cadeia, o município distante que nunca foi conectado ao sistema produtivo nacional porque o trilho nunca chegou até ele, situação que afasta investimentos e empregos. A expansão ferroviária geraria ganhos de consumo real maiores justamente nos estratos de menor renda. A ferrovia, quando avaliada em toda a sua extensão, é também uma política de redução de desigualdade social e regional.

A ferrovia que o Brasil já tem poderia transportar muito mais do que transporta hoje. A pergunta que este estudo ajuda a responder não é se vale a pena investir em ferrovia no Brasil. Os números respondem com clareza que sim. A pergunta que fica é por que o país ainda não agiu com a urgência necessária para mudar esse quadro. O Brasil tem muita carga e pouco trilho. O custo econômico, ambiental e social de não agir com urgência para o transporte ferroviário é conhecido e elevado para a sociedade brasileira.

Se nada for feito, em 2035 escreveremos o mesmo artigo - só que com mais carga, menos trilho e mais poluição.

(Texto originalmente publicado no Valor Econômico, edição de 26/6/2026)

Jornal da USP
https://jornal.usp.br/artigos/ferrovias-no-brasil-muita-carga-e-pouco-trilho/