Simone Tebet: "Haddad pode estar no PT, mas tem visão e posicionamento de centro, perfil moderado, equilibrado" - Foto: Rogério Vieira/Valor |
Tebet mira 'ponte' com agro e descarta ser vice de Haddad

Tebet mira 'ponte' com agro e descarta ser vice de Haddad

Ex-ministra e pré-candidata ao Senado pelo PSB ressalta ligação com agronegócio e perfil de centro, defende ajuste fiscal e fala em impeachment de ministro do STF


Por Cristiane Agostine e Marcello Corrêa - De São Paulo

Pré-candidata ao Senado por São Paulo, a ex-ministra Simone Tebet (PSB) pretende ser a "ponte" entre o agronegócio e as pré-candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição e do ex-ministro Fernando Haddad (PT) ao governo paulista. Tebet avalia que seu perfil de centro, de "mulher do interior, cristã e conservadora", poderá ajudar a reduzir a resistência a Lula e Haddad.

A pré-candidata diz ainda que o próprio Haddad, apesar de estar no PT, "tem visão e um posicionamento muito de centro".

O desafio de vencer a resistência, no entanto, não é pequeno. Nesta semana, representantes da direita participaram da Agrishow, principal feira do setor, onde reforçaram críticas a Lula a uma plateia que já se opõe à gestão petista - da qual Tebet fez parte até março. Na entrevista ao Valor, a pré-candidata, que é egressa do segmento, atribui a animosidade a uma "memória antiga" sobre a esquerda.

A ex-ministra do Planejamento transferiu o domicílio eleitoral do Mato Grosso do Sul, onde construiu sua carreira política, para São Paulo. Em 2022, quando disputou a Presidência, então filiada ao MDB, recebeu no Estado um terço de todos os votos que ganhou no país. Há um mês, filiou-se ao PSB, após quase 30 anos no MDB. Tebet diz que as mudanças fazem parte de uma articulação de Lula para concorrer ao Senado, e descarta ser vice de Haddad. "O papel de um candidato a vice é muito diferente e menor, inclusive no que se refere a voz, a ser ouvida a fazer a diferença, do que o papel de um candidato ao Senado. É infinitamente menor", diz. Lideranças da pré-campanha de Haddad afirmam que Tebet é um quadro político qualificado e terá o papel que quiser na chapa.

A ex-ministra e ex-senadora avalia que é possível atrair lideranças políticas da centro-direita para o palanque de Haddad. No alvo, estão quadros do MDB, PSDB e PSD.

Sobre sua gestão no ministério, admite que o governo deveria ter avançado na agenda de revisão de gastos, mas afirma que não foi possível. Para 2027, defende um ajuste fiscal e corte de gastos tributários.

O papel de um candidato a vice é muito diferente e menor [...] do que o papel de um candidato ao Senado."

Ao falar sobre segurança, diz que "bandido bom é bandido preso". Sobre o MST, afirma que o país não gosta de baderna nem de invasão, mas vê um amadurecimento do movimento dos sem-terra.

A pré-candidata defende a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado, e diz que a Corte precisa fazer uma reforma antes que o Congresso a faça. "Se um presidente da República pode ser 'impichado', ninguém está acima da lei. Quem é supremo é a instituição, não os seus membros."

A seguir, trechos da entrevista.


Valor: A senhora pode ser vice de Haddad? Qual será seu papel?

Simone Tebet: Eu só sou candidata se for ao Senado. Vim para uma frente ampla, que entende a importância de termos mais quatro anos do governo Lula, sob pena de retrocessos. Só tem sentido eu sair de casa depois de já ter sido vice-governadora [no Mato Grosso do Sul], senadora, ministra, candidata a presidente, se eu vier para somar no palanque. Já fui vice e o papel de um candidato a vice é muito diferente e menor, inclusive, no que se refere à voz, a ser ouvida, a fazer a diferença, do que o papel de um candidato ao Senado. É muito mais fácil eu ajudar a frente ampla sendo pré-candidata ao Senado. O PSB, Alckmin, João Campos, Lula não me trouxeram "do nada" para São Paulo. Sou a que mais dialoga com o centro, o agronegócio. Sou uma mulher do interior, conheço como pensa a mulher do interior. Somos solidárias, cristãs, humanas, mas somos mais conservadoras. Meu compromisso maior e primeiro é com a campanha de Lula.

Valor: Já disse isso a Haddad?

Tebet: Já. Ele sabe do papel que posso representar dialogando com as mulheres do Estado, no projeto nacional. A prioridade absoluta é a reeleição [de Lula].

Valor: Quem vai para a vice e quem ficará com a outra vaga para disputar Senado?

Tebet: A vice vai depender da chapa completa. Haddad já tem pelo menos uma mulher candidata ao Senado. Se tiver duas, não precisa necessariamente de uma mulher vice. O perfil ideal de vice deve ser alguém que some na centro-direita, um empresário, alguém do comércio, do interior, porque o Haddad é da capital. Do agronegócio, a Teca [Teresa Vendramini] é um excelente nome.

Valor: O agronegócio está próximo da direita. Qual será a estratégia para tentar se aproximar?

Tebet: Sou do agro, então posso dizer que o agro precisa de segurança jurídica e econômica. Precisa saber que vai produzir com preços não inflacionados, que vai ter a estrutura suficiente para continuar exportando. Vamos mostrar que nenhum governo fez e atuou tanto para o agronegócio quanto Lula. Seja na subvenção, seja no financiamento, numa relação equilibrada entre a agricultura familiar e o grande agro. Nunca faltou suporte. O que faltava e agora não falta mais era uma ponte. A ponte [se deu] através do vice-presidente [Geraldo Alckmin], que foi governador de São Paulo, e por mim, que tenho condições de dialogar.

Valor: Mas a que a senhora atribui a essa resistência a Lula?

Tebet: Atribuo à memória antiga, da época em que tinha muita invasão. Temos o problema de demarcação de áreas indígenas, a invasão do MST, a memória do passado. Isso não existe mais porque estamos demarcando áreas que são dos povos originários. Pagamos o justo para o proprietário rural, coisa que não acontecia no passado. As invasões ficaram para trás. É essa memória aliada a um país polarizado, que optou por um candidato [Bolsonaro] que não representou o agro. Vamos mostrar e comparar. As exportações recordes aconteceram no nosso governo, subsidiamos o agro fortemente. Nenhum número do agro do governo passado ganha de nós.

Valor: Como avalia o MST? O governo deveria ser mais incisivo à questão das invasões?

Tebet: Houve um amadurecimento do governo e dos movimentos sociais. O MST senta à mesa, conversa, dialoga. O Brasil não gosta de baderna, não gosta de invasão.

Valor: Como vai responder por não ter a carreira política em SP?

Tebet: São Paulo sempre foi um Estado com capacidade de abraçar a todos. Com muita tranquilidade, estou colocando o meu nome à disposição, pedindo voto para representar São Paulo. Em 2022 [quando disputou a Presidência], tive cinco milhões de votos [4,91 milhões]. São Paulo foi o Estado que mais me deu votos [1,62 milhões de votos, 33% do total]. De alguma forma, São Paulo se identificou com as minhas bandeiras, com o que penso. É um Estado mais de centro. Eu me identifico com essa posição, mais equilibrada, mais racional, de ver a política. E eles [aliados de Tarcísio de Freitas, pré-candidato à reeleição ao governo] vão ter certa dificuldade, porque o governador também não é daqui. Tenho minhas filhas que moram aqui há 10 anos, meu marido é de Birigui, meu avô morou em Marília, fiz mestrado em São Paulo. E a troca de partido também está pacificada. Nunca tinha trocado, troquei por necessidade. Em São Paulo, lamentavelmente, o MDB foi muito à direita.

Valor: A campanha ao Senado deve ter como tema o STF. Qual é a sua avaliação sobre impeachment de ministro e código de ética?

Tebet: O Supremo é só mais um Poder e é preciso que os Três Poderes voltem para suas caixinhas. Houve uma judicialização exacerbada da política, e jogou para um poder que tem o papel de interpretar a Constituição e as leis, decidir politicamente. Não deu certo, houve excessos. Tem que discutir uma série de coisas. Quando [um caso] vai para o Supremo, gera a sensação de justiça tardia, de que a corrupção não é combatida, de que os políticos estão protegidos. É natural a reação da sociedade.

Valor: Como vê as propostas de Fachin e Dino?

Tebet: A sugestão do Fachin não colide com a do Dino. Autocontenção teria que vir para que o Supremo volte a ter legitimidade perante à sociedade. É preciso uma reforma do Judiciário, mas não pode vir sozinha. Defendo a reforma política, autocontenção do Legislativo e a reforma do Judiciário, que passa por não ter uma justiça tardia. Há duas propostas à mesa e algo precisa ser feito. E aqui não é um recado ao Supremo. Não há democracia sem a Suprema Corte e ela salvou a democracia. É justamente pelo respeito que tenho.

Valor: E se não for feita?

Tebet: Se não fizerem, vai ser feito por eles, porque o Congresso vai fazer. As pesquisas mostram que a sociedade vai eleger parlamentares que tenham compromisso com essa contenção dos poderes. Mas essa contenção tem que ser de A a Z. É cômodo para o Congresso pegar um inimigo comum.

Valor: Se for eleita senadora, falará em impeachment?

Tebet: Se um presidente da República pode ser 'impichado', ninguém está acima da lei. Quem é suprema é a instituição, não os seus membros. Eles não estão acima da lei. É preciso só fazer uma diferença entre um membro que está sendo acusado por ilegalidade, abuso de poder e corrupção e querer 'impichar' alguém por crime de interpretação. Se tem uma liminar de um ministro e não estou satisfeita, ela vai para o colegiado. Se o colegiado tomou a decisão, alguém tem que dar uma última palavra. Não pode ser o deputado, o senador, nem o Congresso, porque a Constituição não diz isso. É preciso separar. Crime de interpretação, não cabe impeachment de abuso de poder, ilegalidade e corrupção.

Valor: Há investigações envolvendo ministros no caso Master. A senhora já tem uma avaliação?

Tebet: A ampla defesa serve para o cidadão comum e para as autoridades. Não conheço os processos.

Valor: Sobre sua gestão no Ministério do Planejamento, deveria ter feito mais na revisão de gastos? Há uma preocupação sobre a trajetória da dívida pública.

Tebet: Deveria, mas daria para fazer? Acho difícil. Pegamos em 2023 um orçamento fictício. E tivemos que colocar políticas públicas e ações obrigatórias, repor o orçamento. Deixamos a desejar porque não conseguimos o apoio do Congresso para cortar gastos tributários, para fazer um gasto com maior eficiência. Agora o momento é outro. Não temos desculpa para não fazer um ajuste fiscal maior. É possível. O Brasil está crescendo acima de 2% ao ano, está arrecadando mais, sem aumento de imposto. Paralelo a isso, precisamos reduzir 10% ao ano os gastos tributários, que giram em torno de R$ 600 bilhões. Não diria que vai cortar 40%, mas é possível cortar 30% ao longo dos 4 anos.

Valor: A economia é um dos entraves do governo para melhorar a popularidade, apesar de indicadores positivos. Como avalia isso?

Tebet: Todos os números da economia estão melhores. O salário mínimo cresceu acima da inflação, a média do preço dos alimentos cresceu menos que a inflação, tem recorde histórico de empregabilidade, aumento da renda. O problema está no endividamento das famílias. Tem inclusive o fato dos jogos. Sou contra as 'bets'. O [programa] Desenrola, que foi lá atrás, que foi bom como experiência, agora tem que vir na versão 2.0 com algo mais. Pode levantar o FGTS desde que isso possa cobrir toda a dívida e a pessoa fique um tempo sem fazer outra. Não dá para esperar. O governo tem que entrar com a medida de proteção e exigir do Banco Central uma rigorosa regulamentação. Com as fintechs, a bancarização, a população tem sido direcionada a um crédito ruim, com juros altíssimos. O BC tem condições de começar a baixar juros para dar uma folga às famílias endividadas e ao setor produtivo.

Valor: Segurança é um grande problema do Estado e é usada como bandeira pela direita. Quais suas propostas?

Tebet: Tenho uma diferença em relação a eles. Para eles, bandido bom é bandido morto. Para mim, bandido bom é bandido preso. E se a sociedade brasileira é cristã, não pode divulgar outra coisa. E quem é que estimula a violência no Brasil, especialmente contra as minorias? É o discurso da extrema-direita que eles representam. Hoje se mata uma mulher por dia, pelo fato de ela ser mulher. E isso é estimulado por um discurso de ódio. A violência em São Paulo não começa no Estado, é importada. Vem do além mar, do Porto de Santos, da fronteira seca. Vem com o contrabando de cigarro, de armas, que alimentam o crime organizado e milícias. Vem das fronteiras em relação ao tráfico de drogas. Por que São Paulo e os outros governadores não quiseram uma ampla coordenação nacional, com a PEC da Segurança, para combater o crime organizado? O crime organizado depende do crime transnacional. Crime transnacional não se combate só com polícias militar e civil, mas com organização nacional.

Valor: O fato da PEC da Segurança não ter avançado não dificulta uma candidatura governista?

Tebet: Não. Tem que perguntar por que o governador de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina foram contra uma PEC que vai salvar vidas, que combater as drogas. A droga vem da Bolívia e do Paraguai e chega nos grandes centros. Não se combate sem a Polícia Federal, a Receita Federal, a Polícia Rodoviária Federal. E eles foram contra.

Valor: A esquerda nunca venceu o governo de São Paulo e desde 2010 não elege um senador. Como se aproximar desse eleitor que quer resposta para a segurança, dos evangélicos, jovens e das mulheres?

Tebet: Ainda bem que sou uma pessoa de centro. Na economia, sou centro-direita. Nos costumes, sou progressista. A ideia da campanha foi me trazer justamente para que eu seja não a que pensa diferente - e que muitas vezes penso - mas para complementar um projeto que se apresenta. E convenhamos, Haddad pode estar no PT, mas ele tem visão e um posicionamento muito de centro. Uma mostra disso é a performance que ele teve em 2022, quando teve 44,7% no 2 turno [Tarcísio venceu com 55,2%]. Foi o melhor desempenho do PT em São Paulo. Ele tem um perfil moderado, equilibrado, ele dialoga. E 2026 não é a repetição de 2022. Tem um eleitorado cansado da polarização. E, numericamente, esse eleitor de centro é bem maior do que era em 2022. Isso dá margem para a gente trabalhar. E adversário é da extrema-direita.

Valor: É possível trazer o PSD e Kassab para esse projeto, ainda que em uma aliança informal?

Tebet: O PSD cresceu de tal forma que se assemelha ao que vivenciei no MDB. É um partido com várias vertentes ideológicas e linhas de pensamento. É muito difícil um partido grande como o PSD ter uma postura oficial, ainda que regionalizada, como o caso de São Paulo, sem liberar os seus filiados, os candidatos. Ainda que não oficialmente, tenho certeza que teremos muitos membros, candidatos ou pré-candidatos de todos os partidos na nossa base, no palanque.

Valor
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