Solenidade de Passagem do Comando Geral da PM: o govenador Tarcisio de Freitas troca comando da PM e o entrega ao coronel José Augusto Coutinho. apadrinhado do deputado Guilherme Derrite | Imagem: Foto: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP
A crise na Polícia Militar de São Paulo está no retrovisor de Guilherme Derrite

A crise na Polícia Militar de São Paulo está no retrovisor de Guilherme Derrite

Repetiam-se os casos de ações desastradas de PMs enquanto se deixava de apurar até a corrupção


Por Marcelo Godoy

Depois de um ano e meio de espera, no dia 16, os médicos Júlio César Navarro e Silvia Mónica Cárdenas conseguiram que o Estado os ouvisse com atenção. Em 2024, um PM assassinou seu filho, o estudante de medicina Marco Aurélio, de 22 anos. O rapaz deu um tapa no retrovisor de uma viatura. Desarmado, levou um tiro à queima-roupa.

O casal foi recebido por Oswaldo Nico Gonçalves, atual secretário da Segurança. Sílvia se comoveu ao lado de Nico. Por que os pais de uma vítima de excesso homicida demoraram tanto para serem ouvidos na Segurança Pública? Integrantes do Ministério Público falam a quem quiser ouvir que a gestão de Guilherme Derrite deve muitas explicações, e não apenas à família do jovem Marco Aurélio. O entorno de Tarcísio de Freitas acredita que foi um erro nomear alguém com pretensões políticas para chefiar a Pasta.

Derrite é acusado por coronéis de ter aparelhado a corporação. Formou um grupo com capitães de sua turma de Academia, que passavam por cima dos superiores, corroendo a hierarquia. Promoveu a postos-chave amigos da Rota, como o coronel José Augusto Coutinho, o mesmo que, segundo o promotor Lincoln Gakiya, foi omisso em apurar propinas do PCC: policiais faziam a segurança da empresa Transwolf, controlada pela facção, vazaram investigações sigilosas, frustrando prisões de bandidos, e mataram Antônio Vinícius Gritzbach, o delator do PCC, a mando da facção.

A fala de comandante que dizia à tropa que estava em "uma guerra" - palavras de efeito devastador na linha de frente - compõe o cenário que explica casos como o do PM de folga que matou um empresário com um tiro na nuca porque pensou se tratar de ladrão, do PM que jogou um detido da ponte, do tenente que executou um mendigo que implorava compaixão e da PM que matou Thawanna Salmázio porque ela caminhava na rua - rua sem calçada da periferia - quando o retrovisor da viatura bateu em seu marido. PMs se divertem acertando pessoas nas ruas com estilingue e pauladas. Tiram até racha com viatura... A lista é enorme. Essa não é a PM de coronéis como Nilton Viana, Francisco Profício, Rui César Melo e Nivaldo Restivo.

PM que matou mulher na Zona Leste de SP está em estágio na corporação e atua nas ruas há 3 meses. Foto: Reprodução
PM que matou mulher na Zona Leste de SP está em estágio na corporação e atua nas ruas há 3 meses - Vídeo de câmera corporal mostra que mulher morta por PM na Zona Leste de SP não encostou em retrovisor nem iniciou briga Foto: Reprodução

Há muita coisa no retrovisor de Derrite, como licitações suspeitas no Centro Integrado de Comando e Controle e denúncias de venda de exame psicotécnico em concursos. Há na PM 13 mil vagas ociosas e sobram assessores nos palácios. Para coronéis, tudo se resume a um problema: falta comando e controle porque a política entrou pela porta dos quartéis, a política partidária, não a que zela pelo bem público. Derrite não recebeu os pais do estudante. Não teve oportunidade em um ano para demonstrar compaixão.

Estadão
https://www.estadao.com.br/politica/marcelo-godoy/a-crise-na-policia-militar-de-sao-paulo-esta-no-retrovisor-de-guilherme-derrite/