Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil |
Depois de hesitar, Haddad deve acompanhar Lula em visita à Índia

Depois de hesitar, Haddad deve acompanhar Lula em visita à Índia

Lula costuma aproveitar viagens para conversas importantes, neste caso, poderá ser sobre São Paulo, já que ele e integrantes do PT têm pressionado Haddad para ele concorrer ao governo do Estado


Por Lu Aiko Otta, Valor - Brasília


Depois de colocar em dúvida, em entrevistas e eventos, se acompanharia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na viagem à Índia e à Coreia do Sul esta semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, deverá mesmo integrar a comitiva presidencial, cuja partida está prevista para a terça-feira (17).

O interesse na participação do ministro não se deve a algum ato oficial a ser assinado durante a visita oficial, e sim ao que poderá ocorrer nas quase 20 horas de voo nos trajetos de ida e volta. Lula costuma aproveitar esses percursos para fazer conversas importantes.

No caso, poderá ser sobre o quadro eleitoral em São Paulo. Lula e integrantes do PT têm pressionado Haddad para ele concorrer ao governo do Estado. É o maior colégio eleitoral do país e, portanto, decisivo para o projeto de reeleição do presidente.

Lula precisa de um palanque forte no Estado e Haddad tem as melhores credenciais para essa tarefa. Nas eleições de 2022, conquistou 44,73% dos votos, contra 55,27% de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que assim foi eleito e agora disputará a recondução.

Por causa de seu capital eleitoral, Haddad também é considerado, como um "plano B", para concorrer a uma vaga no Senado. Com poderes para afastar do cargo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de processar e julgar o presidente da República em caso de impeachment, a casa legislativa virou prioridade da oposição, que trabalha para dominá-la.

Este mês, em entrevista ao site UOL, Lula disse que Haddad e o vice-presidente, Geraldo Alckmin, sabem ter um papel a desempenhar nas eleições em São Paulo.

Haddad, porém, tem afirmado e reafirmado que não pretende concorrer a nenhuma eleição. Prefere trabalhar no programa do governo Lula 4.

Também nessa frente, há conversas importantes a serem feitas. Na semana passada, Haddad disse num evento promovido pelo banco BTG que o orçamento brasileiro estaria maduro para se discutir um programa de renda mínima.

Não deu mais detalhes, mas é sabido que a equipe econômica tem tido dificuldades em barrar o crescimento das concessões do Benefício de Prestação Continuada (BPC), cujas despesas chegaram a R$ 127,3 bilhões no ano passado, ante R$ 111,1 bilhões em 2024. As tentativas de apertar as regras de acesso ao benefício trombam com decisões da Justiça no sentido contrário. Outra despesa que cresce de forma acelerada e está no radar da equipe econômica são as aposentadorias rurais. É outro item de difícil controle. O mesmo se aplica ao seguro-defeso.

Da reorganização desses e outros benefícios poderia resultar um projeto parecido como de renda mínima da cidadania, defendido há décadas pelo ex-senador Eduardo Suplicy, quadro histórico do PT.

Dependendo da formatação, daria um horizonte mais claro para o crescimento dos gastos obrigatórios do governo, principal problema da política fiscal. A evolução deles ameaça inviabilizar o arcabouço fiscal. No mesmo evento, Haddad falou sobre a necessidade de fazer com que as despesas evoluam na mesma velocidade do teto de despesas do arcabouço.

Tudo parece muito lógico sob a ótica econômica, mas não pelo prisma político. Na terra das vacas sagradas, poderá ser pedido a Lula um sinal verde decisivo a essa proposta, que toca em programas sociais caros ao PT - se a conversa passar pelo programa de governo.

Foi numa viagem longa, para o Egito, que Lula convidou Haddad para ocupar a Fazenda.

O ministro já contou algumas vezes que preferiu, antes de ser convidado, dizer o que pretendia fazer. Se concordasse, o presidente faria o convite. A lista era: reforma tributária, novo marco fiscal, reduzir a Emenda Constitucional da Transição para não a deixar ultrapassar os R$ 200 bilhões e cortar gastos tributários. Esse último item envolvia enfrentar interesses poderosos, alertou na ocasião.

Haddad disse em janeiro que deixaria proximamente o Ministério da Fazenda. Mas que não tinha uma data ainda definida, inclusive porque o presidente lhe pedira para acompanhá-lo na viagem que se inicia esta semana.

Ao comentar as pressões para ser candidato, Haddad disse certa vez que ele e Lula são amigos há muito tempo e dialogam com muita franqueza. A questão, acrescentou, era quem convenceria quem. A ver o que as horas de voo são capazes de produzir.

Valor
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