Tarcísio visita Bolsonaro na Papudinha, acompanhado de Carlos Bolsonaro - Foto: Reprodução/redes sociais |
Tarcísio perdeu o bonde?

Tarcísio perdeu o bonde?

Governador de São Paulo continuará a ser incluído em pesquisas como pré-candidato à Presidência, mas não esconde desânimo por não ter sido ungido candidato por Bolsonaro, como ocorreu em 2022


Por Vera Magalhães

Uma semana depois do movimento de Gilberto Kassab para anabolizar seu PSD com mais um pré-candidato à Presidência e da reiteração, por parte de Tarcísio de Freitas, do apoio a Flávio Bolsonaro, a sensação entre aliados do governador de São Paulo é que, agora, ele perdeu mesmo o último bonde para a corrida ao Planalto.

Continuará, porém, a ser incluído em pesquisas de intenção de votos, e isso fará com que permaneça a pressão por demonstrações reiteradas de lealdade a Jair Bolsonaro, algo que lhe tem causado constrangimento visível.

Auxiliares e conselheiros relatam certo desânimo de Tarcísio com a forma como os fatos se desenrolaram entre o fim do ano e este início de fevereiro. Depois de um flerte claro com o projeto nacional, que envolveu conversas com o meio empresarial e político e uma estratégia de comunicação e marketing, ele não conseguiu o que esperava: ser, de novo, ungido candidato por Bolsonaro, como foi em 2022 ao governo paulista.

A escolha precoce do ex-presidente preso pela própria estirpe expôs a falta de traquejo político de Tarcísio, que não encontrou meios de argumentar com o padrinho a respeito da conveniência de sua candidatura em detrimento do filho Flávio. Aqueles que conversaram com ele depois da última visita a Bolsonaro, na Papudinha, dizem que, mesmo agora, ele encontra dificuldade de tratar da montagem do jogo à própria reeleição.

Tarcísio está preocupado com a possibilidade de a chapa ao Senado ficar com uma composição muito radical à direita. Ele se sentiria mais confortável com pelo menos um nome de centro-direita, já que uma das vagas deverá ser ocupada por seu ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite, de quem vem se afastando desde que promoveu mudanças na pasta.

A tendência é que a família Bolsonaro pressione por um nome do PL para o Senado, tornando a chapa mais ideologizada do que Tarcísio gostaria. Ele expôs a Bolsonaro o risco de que isso favoreça a eleição de um nome ligado ao presidente Lula, mas não há garantia de que o alerta será levado em conta.

Pessoas próximas a Tarcísio relatam que, além de certo travo amargo que ficou da implosão do ensaio presidencial mesmo antes do lançamento, ele está longe de ter o sentimento de que a reeleição será uma barbada que dispensará maiores preocupações, a despeito do franco favoritismo registrado nas pesquisas.

Inspira cautela no campo tarcisista, sobretudo, a possibilidade de Lula convencer o vice-presidente e ex-governador Geraldo Alckmin a ir para o sacrifício e disputar o Palácio dos Bandeirantes. Mesmo desprovido de seu antigo capital eleitoral, Alckmin, que governou São Paulo por três mandatos, poderia questionar Tarcísio quanto às marcas de sua gestão, uma vez que a maioria das grandes obras e das vitrines do estado é herança das gestões tucanas.

Mais: os problemas decorrentes da privatização da Sabesp, esta, sim, uma das principais apostas da gestão Tarcísio, deverão ser martelados pelo candidato lulista, seja ele qual for.

O antilulismo, cada vez mais forte no interior do estado, joga a favor da recondução de Tarcísio. Lula, no entanto, já deixou claro que tentará montar uma chapa competitiva em São Paulo, que impulsione sua própria votação no estado de maior eleitorado da Federação. Avançou nas conversas com Fernando Haddad, com Simone Tebet e com o próprio Alckmin, mas nenhum deles demonstra grande entusiasmo em aceitar a "missão".

Também no Planalto prevalece o diagnóstico de que Tarcísio ficará mesmo preso em São Paulo. A ordem por lá é reforçar a imagem de subserviência em relação a Bolsonaro, contra a qual ele se insurgiu em recente entrevista.

Por tudo isso, a eleição paulista será a mais nacionalizada do país. O irônico é que, mesmo preterido pela família Bolsonaro, Tarcísio será fundamental para a campanha de Flávio.

O Globo
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