Carrascos da Ditadura (84 páginas), editado pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), ressurge como manifesto fundamental, interligando o martírio de Manoel Fiel Filho às recentes ameaças golpistas contra a democracia brasileira. No livro, o autor, Jorge Oliveira, disseca crimes estatais que jamais prescrevem na memória coletiva, expondo feridas abertas por torturadores impunes. Esta obra transcende relato histórico; constitui advertência vital frente ao autoritarismo renascente no país. A leitura deste livro é fundamental para entender operário anônimo cujas ações abalaram estruturas fardadas.
Capturado na Metal Arte em janeiro de 1976, o prensista alagoano enfrentou sessões brutais nas masmorras paulistas sob custódia oficial. Acusado injustamente por distribuir panfletos comunistas, sofreu crueldades indescritíveis até seu último suspiro numa cela imunda do Doi-Codi. O pretexto repressivo mirava sufocar vozes sindicais emergentes no ABC, temidas pelos generais encastelados dentro do Planalto brasiliense. Sua resistência silenciosa transformou-se em estrangulamento bárbaro, forjado cinicamente mediante laudos médicos fraudulentos simulando autoextermínio.

Apenas três meses separaram essa tragédia do assassinato de Vladimir Herzog, rompendo definitivamente qualquer pacto institucional sobre silêncio opressor. Ernesto Geisel sentiu-se traído diante da insubordinação extrema vinda dos porões, culminando na demissão imediata do comandante Ednardo D'Ávila. Esse episódio marcou o divisor de águas entre violência estatal e abertura política lenta, gradual, porém, irreversível para os militares linha-dura. Enquanto sucessores conspiravam, o sangue trabalhador acelerava processos democráticos que mudariam rumos nacionais.
Reconhecimento tardio
Viúva heroica, Dona Thereza lutou quase meio século exigindo verdade cristalina contra as versões oficiais mentirosas a respeito de seu falecido esposo. Somente mediante a Comissão Nacional instituída sob Dilma Rousseff, houve reconhecimento tardio acerca da responsabilidade governamental pela execução covarde. Injustiças financeiras ainda persistem; indenizações irrisórias contrastam violentamente frente aos valores milionários pagos para jornalistas amparados pela anistia. Morta recentemente, ela levou consigo mágoas profundas, mas também orgulho pela herança insepulta do amado.Nomes abjetos como Carlos Alberto Brilhante Ustra personificam a face sombria dessa máquina torturadora. O autor identifica minuciosamente cada carrasco envolvido, expondo engrenagens burocráticas que permitiam "erros de trabalho" resultarem em cadáveres ocultados. Embora denunciados pelo Ministério Público Federal, muitos criminosos fardados permanecem inalcançáveis pela justiça comum, gozando proteções anacrônicas. A obra desnuda cúmplices togados ou legistas corruptos responsáveis por ratificar documentos falsificados visando acobertar homicídios qualificados.
Arquivos desclassificados da CIA desmascaram o ditador, revelando autorização explícita emitida no governo para eliminar opositores perigosos. Geisel concedeu carta branca aos agentes, agindo sob égide intervencionista norte-americana que patrocinou golpes sangrentos por toda América Latina. A nefasta Operação Condor permitia livre trânsito visando sequestrar militantes cruzando fronteiras sul-americanas impunemente. Espiões estrangeiros ensinaram técnicas medievais refinadas aplicadas contra brasileiros indefesos dentro dos quartéis transformados em matadouros.

Depoimentos inéditos
Jorge Oliveira constrói narrativa primorosa, entrelaçando depoimentos inéditos e sensibilidade investigativa visando resgatar dignidade humana roubada. Seu trabalho vigorosa preserva rigor factual sem abdicar da indignação ética necessária diante de tamanha barbárie institucionalizada pelo regime. Este livro expande horizontes propostos inicialmente no documentário anterior, aprofundando bastidores técnicos sobre repressão sistemática. Literatura testemunhal converte-se em instrumento jurídico simbólico, preenchendo lacunas deixadas propositalmente por décadas de negligência.As trombetas autoritárias voltaram soar através das hordas golpistas vandalizando a Praça dos Três Poderes em Brasília. Insuflados pela retórica fascista do ex-presidente Bolsonaro, admirador de torturadores infames, grupos radicais pediram novamente intervenção fardada. O texto serve como antídoto literário contra esquecimento deliberado que alimenta tais impulsos antidemocráticos no presente. Quando crimes pretéritos ficam impunes, fantasmas assombram instituições frágeis, exigindo vigilância cidadã constante e educação política nas escolas.
O destino selou conexão profunda unindo dois metalúrgicos: o sacrifício de Manoel possibilitou ascensão democrática definitiva para Luiz Inácio Lula Silva. Mortes prematuras nos porões geraram faíscas fundamentais culminando nas greves históricas do ABC e criação posterior de sindicatos populares. Fiel Filho tornou-se símbolo coletivo, cujo nome batiza vias públicas visando alertar gerações futuras sobre preço pago pela liberdade. Honrar tal memória constitui dever patriótico, garantindo que ditaduras jamais encontrem solo fértil novamente.
Indispensável, a obra escrita reitera compromisso inalienável visando reparação plena aos perseguidos ou desaparecidos políticos. A Fundação Astrojildo Pereira entrega trabalho instigante, estimulando leitores a enfrentarem o passado sombrio para iluminar caminhos futuros.
Fundação Astrojildo Pereira
https://fundacaoastrojildo.org.br/o-assassinato-de-manoel-fiel-filho-e-o-espectro-do-autoritarismo-no-brasil-contemporaneo/





