Governador de São Paulo diz que manifestação do Brasil sobre captura de Maduro por Trump é errada e vai na direção contrária do que América do Sul deseja
Por Carolina Brígido
BRASÍLIA - O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, considerou um erro a a crítica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à invasão da Venezuela por parte dos Estados Unidos. Para o governador, o Brasil deveria ter liderado um processo de transição para a democracia no país vizinho - mas, em vez disso, sempre tratou Nicolás Maduro como "companheiro".
Segundo o governador, é possível, criticar a forma como foi feita a operação na Venezuela com a captura de Maduro. "Mas o fato é que algo precisava ser feito e foi feito", afirma em entrevista ao Estadão.
Tarcísio defende que o Brasil seja "pragmático" em relação à operação e reconheça o novo governo venezuelano, quando ele for estabelecido, para ajudar a reerguer o país.
Na avaliação do sr., qual o significado da deposição de Maduro para a Venezuela e para a América Latina?
A gente espera que se encerre um ciclo ruim para a história da Venezuela. Se a gente voltar um pouco na história, alguns anos atrás, a gente vai ver que havia um país que estava prosperando, que tinha uma das maiores, se não a maior renda per capita da América Latina e, de repente, esse país entrou em uma rota ruim, de perda de liberdades individuais, falência do sistema eleitoral, autoritarismo, fraude eleitoral; uma rota de ditadura e uma população que foi empobrecendo ao longo do tempo. Divisas foram sendo perdidas, investimentos foram indo embora. O país, que deve ter trinta e poucos milhões de habitantes, perdeu talvez 25% da população, que é um dos maiores êxodos da historia moderna, proporcionalmente falando. Então, a gente percebe que é um país que entrou em uma rota muito ruim e que agora se reencontra com a esperança.
O que seria essa esperança?
A gente viu tudo que deu errado ao longo dos anos na Venezuela: o regime de Hugo Chávez, agora o regime de Nicolás Maduro, uma tolerância, para não dizer uma influência e até uma sociedade com o narcotráfico, que é uma chaga da América Latina e também do mundo. Um governo que se sustentou da pior forma possível. A gente assistiu, ao longo dos anos, às instituições se deteriorando, e hoje é um renascimento. Hoje, talvez, a Venezuela possa se encontrar com a esperança, com um novo ciclo de prosperidade, um ciclo de crescimento, desde que as coisas aconteçam da forma como têm que acontecer. A gente torce muito pela Venezuela, pelo povo venezuelano. Que esse ciclo ruim da história da Venezuela tenha se encerrado no dia de hoje.
O governo Lula rechaçou a operação dos EUA e ressaltou a defesa da autonomia e da soberania dos países latino-americanos. Para o sr., a medida adotada pelo governo Donald Trump fere a autonomia da região?
Essa operação ocorre pela omissão dos países que não lideraram o processo. O Brasil, que é a maior economia e que responde pelo maior território da América do Sul, poderia ter ajudado a Venezuela a construir um processo de transição para uma democracia, mas o Brasil nunca fez isso, nunca cumpriu esse papel. A gente pode criticar os meios que foram usados agora, a legitimidade ou não. Mas o fato é que algo precisava ser feito e foi feito. Isso acontece porque nunca houve, por parte do Brasil, a liderança nesses últimos anos para conduzir esse processo de transição, para que a Venezuela pudesse de fato migrar para uma democracia e que pudesse caminhar com as próprias pernas. Então, isso está acontecendo hoje de uma maneira mais traumática. Cabe ao Brasil ajudar a Venezuela agora a se reerguer.
Houve uma reação majoritária de países sul-americanos a favor da operação americana. Isso pode ser mais um motivo de acirramento político na região?
A gente vê na América do Sul esse movimento por ondas, e hoje você tem uma onda mais à direita. De certa forma, existe um sentimento de que o regime de Maduro era insustentável. Fazia mal para a região, prejudicava os países vizinhos e tinha consequências para os demais países. É um regime que se sustenta no narcotráfico, que impõe o terror, com uma restrição enorme para os cidadãos. Um regime ruim para a América do Sul em todos os sentidos e que trava o desenvolvimento da região como um todo. A deposição de um ditador que fez tão mal à Venezuela tem que ser celebrada e, por isso, as manifestações da maioria dos chefes de Estado sul-americanos, que estão vendo nisso uma oportunidade para a Venezuela dar um salto, e esse salto ser benéfico para toda a região. A gente vê uma posição contrária do Brasil e da Colômbia, lamentavelmente. Mas, de maneira geral, a América do Sul está sintonizada nessa necessidade do fim da ditadura na Venezuela.
O Brasil fica politicamente isolado na região por ter sido contrário à operação?
O Brasil se mostrou, nesse processo todo, irrelevante. Um país do tamanho e da relevância do Brasil na América do Sul poderia ter conduzido (a operação) de uma forma muito menos abrupta, negociada. Ao contrário, o tratamento que o Maduro teve sempre foi de companheiro, nunca foi ditador. A manifestação que vem do Brasil agora é errada, que vai na direção contrária daquilo que toda a América do Sul deseja.
Como o sr. espera que seja o governo de transição?
Toda vez que você tem uma situação dessa, o primeiro objetivo tem de ser o de restabelecer o poder político. Vamos ver o melhor modelo. Se é a vice-presidente convocar eleições, se é um governo de transição. É importante um restabelecimento da democracia, com eleições livres, eleições que possam ser escrutinadas, acompanhadas. E que um novo mandatário ou mandatária possa chegar ao poder com o compromisso com o povo venezuelano de manter linha democrática, com eleições livres, justas, limpas e respeito às instituições. A gente espera um resgate da institucionalidade. Esse processo vai ter de ser muito bem conduzido, porque, ao longo dos anos, houve na Venezuela deterioração do Judiciário, das Forças Armadas.
Como deve ficar a relação histórica do Brasil com a Venezuela depois da queda de Maduro? O sr. acredita que haverá prejuízo para os dois países?
Eu não acredito que tenha prejuízo. Agora, a derrocada da Venezuela ao longo de décadas coincide com os ciclos de poder do PT no Brasil. Houve sempre um patrocínio desses governos pelo governo brasileiro, principalmente os governos brasileiros de esquerda. A gente espera que agora, com o restabelecimento do poder político, haja pragmatismo por parte do governo brasileiro para reconhecer o novo governo que vai se instalar, um poder legítimo, democrático, que a gente espera que aconteça com a maior brevidade possível, da maneira mais correta possível. E que isso seja um passo para que se estabeleçam relações mais fortes, bilaterais, de comércio. A Venezuela, após passar por esse processo, deverá receber investimento, pensar em reconstrução, em virada de chave. Oportunidades se abrem para a Venezuela e o Brasil pode ser parceiro também nessas oportunidades. Espero que o pragmatismo impere e que a gente possa estabelecer laços fortes com um país que tem muitas capacidades.
Qual o impacto econômico dessa operação para a região?
A discussão que vem na sequência é a reconstrução da infraestrutura, do que ficou deteriorado e paralisado pelos anos de descaso, desmando, corrupção. A ditadura foi uma chaga no desenvolvimento econômico da Venezuela. Ela tem muito potencial e deverá receber muitos recursos. Isso vai vir à ordem do dia. Ela vai se somar a outros países latino-americanos que estão aproveitando potenciais, como o do petróleo. É o caso que está acontecendo na Guiana. Você tem mais um país que entra no radar e vai poder dar um salto. Por isso, é importante que o Brasil agora possa enxergar essas oportunidades para que, dentro de uma visão pragmática, possa colher frutos dessa canalização de investimentos que a gente vai ver para a Venezuela a partir do estabelecimento de um novo poder político.
Estadão
https://www.estadao.com.br/politica/entrevista-tarcisio-brasil-poderia-ter-ajudado-transicao-venezuela-democracia/





