Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo / Crédito: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP |
Aliados de Tarcísio voltam a se animar com projeto presidencial após ação de Trump na Venezuela

Aliados de Tarcísio voltam a se animar com projeto presidencial após ação de Trump na Venezuela

Governador vê no episódio histórico chance de reposicionamento de sua pré-candidatura e de alinhamento com o presidente americano


A ação americana na Venezuela para depor Nicolás Maduro reforçou a percepção entre os políticos de que o presidente dos EUA, Donald Trump, tentará interferir no processo eleitoral do Brasil neste ano, a exemplo do que fez na Argentina, em Honduras e no Equador, o que deverá aumentar o grau de imprevisibilidade das agendas das campanhas.

Ao menos em teoria, a elevação do risco eleitoral tende a favorecer quem está atrás na disputa, pois pode criar oportunidades de reversão da vantagem do presidente Lula (PT) demonstrada pelas pesquisas. Ou seja, independentemente de a Venezuela ser, historicamente, um tema espinhoso para a esquerda, qualquer alteração no cenário e na agenda até agora colocada para o país ajuda a alimentar o sonho de vitória da oposição, a exemplo do que ocorreu em outubro do ano passado após a megaoperação policial contra o crime organizado no Rio de Janeiro.

Como consequência, logo após a intervenção americana no sábado (03/01), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) interrompeu suas férias nos EUA para ocupar espaços midiáticos, nas redes e em um veículo de comunicação, e se pronunciar sobre a ação americana. O movimento foi entendido nos meios políticos como um reposicionamento dele na disputa pelo Palácio do Planalto mirando uma das vulnerabilidades do PT, a relação com ditaduras de esquerda.

"Que 2026 comece agora e marque o início de um novo tempo para o povo venezuelano. A Venezuela agora está vencendo a esquerda. E no final do ano, o Brasil também vencerá", disse o governador. Aliados de Tarcísio, na política e no mercado, ficaram novamente otimistas com a possibilidade de ele concorrer contra Lula. Segundo apurou o JOTA, a decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de indicar seu filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato a presidente, tomada na primeira semana de dezembro último, havia deixado o governador de São Paulo abatido e "desanimado" do sonho presidencial.

As manifestações de Tarcísio sobre a Venezuela nas redes sociais e no jornal "O Estado de S. Paulo" embutiram, na opinião de aliados e de adversários, um tom eleitoral voltado ao cenário nacional, pois, em linhas gerais, apontam Lula e o PT como omissos e complacentes em relação a Nicolás Maduro. Também indicam que o governador busca conquistar a confiança de Donald Trump para se estabelecer como um potencial aliado no Brasil. Uma frase de Tarcísio em entrevista ao jornal como um aceno direto a Trump: "A manifestação que vem do Brasil agora é errada, que vai na direção contrária daquilo que toda a América do Sul deseja".

Segundo consultores e conselheiros do governador, o presidente dos EUA deverá atuar para eleger um presidente do Brasil alinhado com os interesses de Trump na América Latina, o que, ao menos hipoteticamente, deve empurrar Lula para o discurso da soberania nacional e reafirmar eleitoralmente as críticas do PT ao intervencionismo americano.

No entanto, antes da campanha eleitoral propriamente dita, Tarcísio precisará se diferenciar do senador Flávio Bolsonaro em sua intenção de unir o campo da centro-direita em torno de seu nome. Para isso, segundo seus auxiliares, ele buscará se posicionar no desenrolar da crise na Venezuela como um "estadista liberal" que apoia a intervenção americana, mas defende a realização de eleições "limpas" e uma transição segura e transparente para um novo governo venezuelano.

Em privado, porém, os auxiliares do governador reconhecem que há muitos riscos nessa estratégia, sendo que o maior deles é o que eles chamam de "imprevisibilidade" de Trump: o comportamento "disruptivo" do presidente americano dificulta qualquer tipo de elaboração de estratégias de médio e longo prazos. Outro ponto destacado é que Tarcísio precisa se equilibrar entre apoiar os EUA sem afrontar a soberania do Brasil, país que ele pretende governar.

Nesse sentido, o maior temor dos auxiliares do governador continua sendo qualquer tipo de gesto americano que coloque sob risco a autonomia dos países sul-americanos em relação à Amazônia, por exemplo.

Além de Tarcísio, estrategistas e marqueteiros dos demais pré-candidatos passaram a avaliar riscos e oportunidades eleitorais decorrentes do episódio histórico. Ainda que tenha reunido a oposição ao presidente Lula em torno das críticas a Maduro, a prisão do ditador evidenciou as diferenças nos discursos dos adversários do petista.

A principal clivagem está na cautela adotada por personagens importantes do jogo eleitoral brasileiro, como o governador Eduardo Leite (PSD-RS), enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente, foi enfático no apoio à ação americana em solo venezuelano, mesmo postura dos governadores Ratinho Jr. (PSD-PR), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União-GO), que praticamente não fizeram reparos à prisão de Maduro.

Na mesma linha adotada por Leite, Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, apoiou a deposição do ditador, mas criticou a maneira como ela ocorreu.

Jota
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