Referência no estudo do 'lulismo', autor afirma que divergências sobre a economia dificultam reedição da frente ampla de 2022 e que Tarcísio encarna o 'bolsonarismo Shrek'
Por Ruan de Sousa Gabriel - São Paulo
Na avaliação do cientista político André Singer, divergências sobre a política econômica dificultam a reedição da frente ampla que assegurou a vitória de Lula em 2022. Enquanto o lulismo propõe aumento do investimento social, setores liberais defendem corte de gastos. À coalização vitoriosa há quatro anos, Singer dá o nome de "Concertación", emprestado da aliança entre socialistas e democratas cristãos no Chile após a ditadura de Augusto Pinochet. E chama de "Confederação" a frente que unificou o agronegócio, os militares e setores evangélicos sob a liderança bolsonarista (o nome é uma referência ao levante de proprietários contra a abolição da escravidão nos Estados Unidos). Em seu novo livro, "Impasse: o Brasil diante da onda reacionária" (Companhia das Letras), o cientista político investiga a formação das duas coalizações e dá atenção especial às contradições que, na visão dele, desgastaram a frente democrática.
Professor da Universidade de São Paulo (USP), Singer é referência no estudo do "lulismo", que ele descreveu como um "reformismo fraco" que busca reduzir as desigualdades sem conflito, por meio de transferência de renda, aumento do salário mínimo e do crédito. Ao GLOBO, ele relacionou a alta do custo de vida à desvantagem de Lula no primeiro turno, explicou por que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), representa o "bolsonarismo Shrek" e apontou a convergência entre os projetos do agro e de igrejas evangélicas.
Por que o lulismo perdeu força nesta eleição?
Pioraram as condições para o exercício do lulismo. Guerras na Ucrânia, em Gaza e no Irã agravaram a alta do custo de vida e temos uma crise de endividamento. Lula 1 e 2 não enfrentaram essas situações. Também cresceu muito a pressão pela austeridade e há um elemento político central: uma extrema direita sem compromisso com nada.
Lula perdeu votos em todas as classes sociais, com exceção do topo da pirâmide, por causa do custo de vida?
O custo de vida e o endividamento pesaram para os swing voters (eleitores pêndulo), que têm renda familiar mensal de dois a cinco salários mínimos. O lulismo não tem conseguido maioria nesse grupo. A questão nem é ter maioria, e sim perder por pouco, como em 2022. O lulismo mantém sua base entre os que ganham até dois salários mínimos, que são 50% do eleitorado, segundo o Datafolha. Isso permite ganhar a eleição mesmo perdendo na faixa de dois a cinco salários mínimos, desde que a diferença não seja grande. É aí que a eleição está sendo decidida.
O que explicaria o aumento do voto em Lula entre os mais ricos?
A ameaça à democracia. Há um fator internacional importante: Trump. Steven Levitsky (autor de "Como as democracias morrem") tem dito que os EUA já não são uma democracia, mas vivem sob um "autoritarismo competitivo". Setores democráticos temem um segundo mandato da família Bolsonaro. Há uma correlação entre renda e escolaridade e é natural que os mais escolarizados deem mais peso à democracia.
Por que não se repetiu a frente ampla com o centro e a direita liberal de 2022?
Essa frente ainda pode se formar. Em 2022, o apoio de uma fração do que eu chamo de burguesia cosmopolita, a indústria tecnologicamente mais avançada e os grandes bancos, representada por economistas da Era FHC, como Pedro Malan, Armínio Fraga e Persio Arida, só aderiu com o segundo turno avançado. Esses setores ainda não se pronunciaram. Esse distanciamento existe porque a frente democrática tem dois programas diferentes: um de investimento social, sem o qual o lulismo não pode operar, e outro de corte de investimentos, desindexação dos benefícios previdenciários e a desconstitucionalização dos pisos de saúde e educação.
O que está decidindo esta eleição: economia ou ideologia?
Apesar das contradições, Lula realizou um mandato popular, ou não seria competitivo, mas não formou maioria confortável. Talvez estejamos assistindo à constituição de um movimento paralelo ao lulismo, com um programa que se referencia em Jair Bolsonaro, mas vai além dele. Para esse grupo, a ideologia é importante. Mas ele não passa de 15% do eleitorado, segundo um cálculo do sociólogo Reginaldo Prandi. A ideologia é mais importante do que jamais foi no Brasil, mas é a economia que está decidindo a eleição. Por isso as oscilações (nas intenções de voto). Quem vota por ideologia não oscila.
O que muda na 'Confederação' com a liderança de Flávio?
Flávio tem muitos votos, mas sem o entusiasmo gerado pelo pai. Jair tem carisma, é capaz de dialogar com as camadas populares, como Lula. Ainda assim, Flávio conseguiu unificar os evangélicos e o agronegócio. Há conexões entre a prosperidade do agro e a proposta por confissões evangélicas. O que falta na coalização dele são os militares, que se retraíram depois do desgaste da tentativa de golpe. Mas suponho que as forças de segurança, inclusive as polícias, estejam engajadas na candidatura.
O que conecta o agro e os evangélicos?
A prosperidade do agro é enorme no Brasil e, com a desindustrialização, seu peso aumenta. Em geral, são os empregos na indústria e os serviços ligados a ela que elevam a renda e reduzem a precarização. Se há menor oferta de bons empregos, fica mais forte o apelo do empreendedorismo e da prosperidade pelo esforço individual, ideologia que é forte em igrejas evangélicas.
No livro, você diz que Tarcísio de Freitas encarna o 'bolsonarismo Shrek'. Pode explicar?
É um bolsonarismo mais influenciado pelo Centrão. Tarcísio foi muito hábil ao usar o governo de São Paulo para construir uma rede de apoios no Centrão. Gilberto Kassab foi seu principal secretário. Tarcísio tinha a simpatia de quase todos os setores empresariais, do agronegócio às finanças, mas entendeu que não pode abrir mão do bolsonarismo para formar uma maioria de direita. A extrema direita é minoritária, mas é aguerrida, capaz de puxar o resto da direita.
Setores da economia esperavam que Tarcísio liderasse a direita liberal, como fez o PSDB.
O PSDB era um partido de centro que se aliou à direita. Tarcísio está inteiramente na direita e com um pé na extrema direita. Havia a expectativa de que ele fosse um bolsonarista ajuizado. Por isso o chamei de Shrek: é um monstro, mas parece simpático. Seu projeto ia na direção de um novo PSDB. Mas esse projeto está em suspenso, se é que não foi desfeito, com a candidatura de Flávio. Jair se impôs a Tarcísio, que já tinha uma candidatura sólida, inclusive com Michelle como possível vice, fazendo a ligação com os evangélicos. O desempenho de Flávio no primeiro turno representa uma vitória pessoal de Jair e a manutenção de seu comando sobre o bolsonarismo.
O Centrão encolheu nesta eleição e a base bolsonarista aumentou. Num eventual governo Flávio, o Centrão perderá poder?
O Centrão perdeu espaço, mas continuará sendo maioria. Num eventual governo Flávio, terá que negociar mais e fazer concessões, mas eles são especialistas nisso. O Centrão não se chama Centrão por acaso, está no meio de dois polos.
O Centrão pode atuar na defesa da democracia caso Flávio, se eleito, endureça o regime?
Em certa medida, sim. Arthur Lira (ex-presidente da Câmara) foi aliado de Jair, mas não aprovou o voto impresso, que teria facilitado o golpe. O projeto do Centrão não é autocrático, é semipresidencialista. É uma proposta que tem apoio entre os capitalistas e até no STF (Gilmar Mendes já a defendeu) e representaria o fim da participação popular na política. A eleição presidencial é o único momento institucional em que as camadas populares dizem o que querem do Estado. Há três propostas na mesa: a autocrática, a democrática e a semipresidencialista. O Centrão vai negociar com todas elas para continuar sendo uma correia de transmissão de recursos federais aos municípios.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/10/17/entrevista-ideologia-e-importante-mas-e-a-economia-que-esta-decidindo-a-eleicao-diz-cientista-politico-andre-singer.ghtml





