Felipe Nunes, da Quaest - Foto: Divulgação |
Entrevista: 'Flávio é favorito, e Lula terá que formar de novo uma frente ampla', diz Felipe Nunes, diretor da Quaest

Entrevista: 'Flávio é favorito, e Lula terá que formar de novo uma frente ampla', diz Felipe Nunes, diretor da Quaest

Cientista político afirma que onda de direita reflete mudanças na sociedade e eleitor insatisfeito; para o segundo turno, ele considera os 8% dos demais candidatos um 'percentual enorme', mas difícil de conquistar

Por Caio Sartori e Thiago Prado - Rio de Janeiro


O resultado da eleição de ontem, com uma nova onda de direita, é reflexo de diferentes fatores, avalia o diretor da Quaest, Felipe Nunes. Além de o eleitor brasileiro estar de fato mais identificado com esse campo ideológico, a percepção sobre o governo Lula (PT) e outros pontos das pesquisas indicavam, diz ele, um desejo de mudança.

Vencedor do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) é agora favorito para chegar ao Planalto. Afinal, nunca houve virada em segundo turno nas eleições presidenciais. Lula tem como caminho possível conquistar os brasileiros que se abstiveram e os 8% que votaram nos demais candidatos - que representariam "um percentual enorme numa disputa tão apertada", mas são difíceis de conquistar pelas rejeições que têm aos dois lados.

O movimento de ontem foi inesperado, considerando as pesquisas da véspera que ainda indicavam Lula na liderança?

Já tem mais ou menos 15 dias que estamos vendo uma movimentação previsível no campo da direita. Esse voto que estava nas candidaturas alternativas foi se consolidando em torno de Flávio. Para mim, Caiado, Cury, Renan e Zema funcionaram como uma caixa d'água de votos, um reservatório da direita. Quando esse eleitor percebeu que as candidaturas não tinham viabilidade, fez o voto útil. O percentual deles sai de 16% para 8%. São os oito pontos que o Flávio cresceu na reta final. Era totalmente previsível. Eu disse no sábado que, dado o movimento de voto útil dos últimos dias, não me surpreenderia se Flávio aparecesse na frente do Lula.

Nos estados, houve uma avalanche da direita para a Câmara e o Senado. Quais são suas hipóteses?

Capturamos esse movimento na última semana. Se comparar as pesquisas do meio de setembro com as de sábado, vai ver que está lá, tanto para o Senado quanto para governos, em especial no caso do Senado. O que me leva a acreditar que o eleitor de direita está, como sempre disse, calcificado. O eleitor tem uma identidade política, um valor, uma visão de mundo, e aguarda a definição de quem é a candidatura de direita - hoje muito consolidada em torno do número do PL, mas que Tarcísio e Cleitinho mostram que não se limita a a isso. Em 2002, 25% dos eleitores não sabiam dizer se eram de esquerda, direita ou centro. Hoje, só 4% não sabem. O que cresceu nestes 20 anos foi a identidade de direita. Existe uma explicação estrutural para o que estamos vendo. O voto econômico explicava muito; o que explica agora são os valores, e a direita tem identidades e valores que são muito claros.

Não tem nada da campanha, mais circunstancial, que explique?

Tem um conjuntural, que são os fundamentos políticos. Nesse ponto, o Lula é um candidato para perder a eleição. Se olhar a aprovação, o saldo negativo, a incapacidade de gerar percepção de bem-estar na sociedade, além do fato de não responder às principais preocupações da população, identifica-se uma eleição de mudança, não de continuidade. O eleitor de direita está lá, e junto com ele o eleitor insatisfeito, que acha que o governo não entregou.

De novo, um candidato de oposição termina o primeiro turno à frente. É reflexo da tal maldição do incumbente mundo afora?

O eleitor está mais impaciente. Tem hoje um reflexo muito mais imediatista, então os governos do mundo todo estão com dificuldade de responder aos anseios da população. Não à toa vemos mais vitórias da oposição. O mundo está dopado na dopamina, querendo tudo para ontem.

Não há também explicações temáticas? Lula em dado momento falou de pautas como terras raras.

Essa campanha deixa de aprendizado que, quando está desconectada com o humor do eleitor, tem muito mais dificuldade de produzir o resultado que se espera. Lula teve basicamente o voto dos lulistas, muito concentrados no Nordeste, e de uma esquerda concentrada em alguns grandes centros. O esforço da campanha não foi para buscar o independente, e sim para manter a base dele. Essa escolha tem consequência.

Flávio é favorito no segundo turno?

Quem disputa o segundo turno na frente é favorito. Todos os candidatos que foram ao segundo turno na frente venceram a eleição. Flávio, claro, se torna favorito. Vai ser preciso ter uma campanha muito estratégica para Lula, a vantagem de Flávio é expressiva.

Para conseguir uma virada inédita, Lula tem que tirar votos de onde?

Existem dois tipos de eleitores que são "swing" no Brasil. Quando descrevi no livro "O Brasil no espelho" as nove bolhas brasileiras, disse que o Lula teria o progressista, o militante de esquerda e as classes D e E. Já o candidato da direita teria o agro, o conservador cristão, boa parte dos empresários e a extrema direita. Em disputa estão o liberal social e o empreendedor individual. Hoje, o empreendedor individual que votou mais no Lula em 2022 está votando no Flávio, e boa parte dos liberais sociais se sentiu traída pelo governo Lula, que foi menos de frente ampla do que eles imaginavam. Alguns deles ainda ficaram no Caiado, no Renan, no Cury. Esses poucos são fundamentalmente os liberais sociais. Lula vai ter que formar de novo uma frente ampla, que se desfigurou.

É possível tirar voto de Flávio, como fez contra Geraldo Alckmin em 2006?

O fundamental é lembrar que tem 8% em disputa. E que boa parte do eleitor mais à direita já foi embora para o Flávio em voto útil. O que sobrou é um eleitor que rejeita os dois; que vê o Flávio como uma opção que não é a melhor que ele gostaria, e o Lula como alguém que o traiu. Esse é o eleitor que está em disputa, e o percentual de 8% é enorme numa disputa tão apertada. É muita gente. Tem outros dois movimentos possíveis: diminuir a abstenção, que continua seguindo o padrão histórico de gente mais velha e das regiões mais pobres, e tentar fazer com que os debates agora aconteçam, e aí há uma discussão fundamental para entender como ganhar esses 8%.

A campanha teve várias revelações de escândalos contra os dois lados. Isso já não impacta mais?

O que dá para cravar é o que documentamos ao longo da campanha. Em vários momentos, perguntei sobre o Master, por exemplo, e em todos o eleitor brasileiro disse que a crise do Master era do sistema, não do Lula ou do Flávio. É óbvio que isso fez efeito, porque quando você enxerga uma crise do sistema, busca mudança. É impossível entender essa eleição sem o recado de mudança. Os escândalos serviram para alimentar esse sentimento. Na opinião dos eleitores de direita, o áudio de Flávio com Vorcaro é um áudio explicado pela campanha, "dinheiro privado". A direita comprou isso, a narrativa funcionou.

Em estados como Rio e Paraná, as pesquisas da véspera destoaram muito na curva que indicavam, quando olhamos o resultado de ontem. O que explica?

Os estados foram carregados pelo mesmo movimento capturado nacionalmente, na média. Mas no Rio de fato foi além do precificado, eu nem incluiria o Paraná nisso. O Rio é a única exceção, porque ainda esperávamos um segundo turno com Eduardo Paes liderando. O papel do Garotinho nesse processo foi crucial. Tinha 10% das intenções de voto, mas ficou nessa corda bamba judicial, e na minha visão isso abriu espaço para que Douglas Ruas tivesse essa alavancagem. Tinha uma tendência, mas ela de fato veio mais forte. Há uma organização política de um grupo que tem se mostrado de muito sucesso no Rio. O poder das igrejas evangélicas também é fundamental, num estado com percentual acima da média nacional de fiéis.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/10/05/entrevista-flavio-e-favorito-e-lula-tera-que-formar-de-novo-uma-frente-ampla-diz-felipe-nunes-diretor-da-quaest.ghtml