Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas redações mais importantes do Rio. Durante a ditadura militar, ocupou lugar destacado da resistência na imprensa carioca
Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22/9), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Mineiro de Além Paraíba, fez da imprensa carioca seu posto de observação do país. Foi repórter, editor, cronista, professor e escritor. Em cada função, preservou a disposição de ouvir as pessoas, desconfiar das versões fáceis e procurar, por trás dos acontecimentos, as forças que moldam a vida brasileira. Integrante da Academia Brasileira de Letras desde 2015, deixa uma obra jornalística de alta qualidade literária e rigor da apuração.
Mestre Zu, como era chamado por seus alunos, trabalhou nas redações mais importantes do Rio, entre as quais as de O Cruzeiro, Visão, Jornal do Brasil e O Globo. Durante a ditadura militar, ocupou um lugar destacado ponto de referência de resistência na imprensa carioca. Sob censura e repressão, Zuenir ajudou a manter abertas as possibilidades de crítica social, denúncia política e reflexão cultural. Não separava a defesa das liberdades da atenção aos direitos elementares do cidadão comum. Sua contribuição ao jornalismo combinava integridade política, curiosidade intelectual e sensibilidade diante do outro.
Enquanto 1968 encontrou a medida do tempo, Cidade Partida (Companhia das Letras) desnudou a dimensão do "espaço" na vida carioca. Ao acompanhar o cotidiano de Vigário Geral depois da chacina de 1993, Zuenir expôs as fronteiras sociais do Rio de Janeiro. A cidade que se reconhecia nas praias, no samba e na celebração também erguia barreiras entre a favela e o asfalto. Seu olhar recusava a redução dos moradores das comunidades à violência que sofriam. Via na segregação, no preconceito e na ausência de direitos parte essencial do problema. Por isso, sua esperança de integração nascia da convivência e da escuta, práticas que o medo costuma destruir.
Cronista
A "memória" mostra sua força em Chico Mendes: Crime e Castigo (Companhia das Letras). Nas reportagens sobre o assassinato do líder seringueiro e no retorno ao Acre anos depois, Zuenir acompanhou o crime, o julgamento e suas consequências. A morte de Chico Mendes não se encerrava na identificação dos assassinos. Revelava o conflito pela terra, a violência contra quem defendia a floresta e a fragilidade da Justiça diante dos poderosos. Ao voltar à história, o repórter recusou o esquecimento. Chico Mendes permanece vivíssimo na história. Suas reportagens sobre seu assassinato receberam os prêmios Esso e Vladimir Herzog.
Zuenir foi um grande cronista. Era um observador arguto dos gestos cotidianos, das mudanças de costumes, da política e da vida urbana A crônica de corpo presente lhe permitia aproximar o grande acontecimento da experiência comum, com humor e leveza, sem perder a convicção de que os detalhes ajudam a revelar as contradições de uma época. O repórter interessado nos traumas nacionais sabia tecer a reconstituição da história na conversa, no medo, no afeto e nas pequenas alterações da vida diária.
E o pecado capital? Inveja: Mal Secreto (Editora Objetiva) é um livraço. Investigou um sentimento difícil de confessar e capaz de corroer relações. O tema parece distante da ditadura, da Amazônia ou das divisões do Rio. Mas não está. Entretanto, pertence aos universos da filosofia e da psicologia: por que alguém deseja apagar a liberdade, a felicidade ou o lugar do outro? "O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde", mostrou Zuenir.
Durante quase dois anos, Zuenir se debruçou sobre este pecado. Mal Secreto é o primeiro volume da coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva. É um mergulho no universo daquele que foi apontado, numa pesquisa exclusiva, entre os brasileiros, como o mais conhecido dos pecados capitais. Zuenir mostra porque a inveja é o pior dos sentimentos e se prolonga no tempo em razão das suas consequências individuais e coletivas. A inveja difere da ambição e da cobiça, é o desejo de que o outro não seja aquele que o invejoso não consegue ser.
Correio Braziliense
https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/o-tempo-o-espaco-a-memoria-e-o-pecado-capital-em-zuenir-ventura/





