O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante evento no Sesc 14 Bis, em São Paulo - Greg Salibian - 7.fev.26/Folhapress |
O aumento das tarifas de importação sobre eletrônicos empobrece o brasileiro

O aumento das tarifas de importação sobre eletrônicos empobrece o brasileiro

  • Medida foi descartada, mas mostra que país segue querendo apostar na proteção da indústria nacional
  • Impacto seria maior sobre famílias pobres, que destinam parcela maior da renda à compra de bens duráveis

Deborah Bizarria

Nos últimos dias, o governo anunciou o aumento do imposto de importação sobre mais de mil produtos, incluindo smartphones, câmeras, máquinas e equipamentos industriais, com alíquotas que podem chegar a 25%. A medida foi posteriormente descartada, mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chegou a dizer que a alta tinha caráter regulatório e não teria impacto nos preços, pois a maioria dos produtos que seriam afetados já é produzida no Brasil.

Entretanto, a equipe econômica havia incorporado ao Orçamento um aumento de R$ 14 bilhões na arrecadação decorrente da mudança. A contradição ficou evidente, mas o problema vai além dela: a medida não se sustentaria como política industrial, política distributiva ou estratégia arrecadatória.

Uma tarifa protege a indústria nacional ao encarecer o produto importado e funciona assim: suponha um equipamento eletrônico que custe R$ 2.000 no exterior. Com alíquota de 20%, o governo cobra R$ 400 de imposto na entrada, e esse custo não desaparece. Marchand (2012), ao estudar a liberalização comercial na Índia, estimou em de 64% a 68% que esse aumento tributário seja repassado ao consumidor final nas áreas urbanas. Usando esse percentual como referência, dos R$ 400 de imposto, uns R$ 250 vão parar no preço que o consumidor paga, de modo que o equipamento que custaria R$ 2.000 passa a custar entre R$ 2.250.

Com o importado mais caro, o produto nacional fica mais barato em comparação, e o consumidor tende a comprá-lo. É esse encarecimento relativo que protege a indústria local, e sem ele não há proteção. Dizer que a medida protege a indústria, mas não altera preços, é assumir que uma tarifa pode funcionar sem fazer o que tarifas fazem.

E quem absorve esse aumento? Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), famílias de menor renda destinam uma parcela proporcionalmente maior do orçamento ao consumo de bens duráveis e semiduráveis. Quando o preço de um computador ou celular sobe em algumas centenas de reais, o impacto é maior em orçamentos apertados. Famílias de renda alta podem postergar a compra, adquirir no exterior dentro das cotas permitidas ou absorver o aumento sem comprometer uma parcela relevante da renda.

Vale salientar que a lista de produtos que seriam tarifados nesta rodada não se limitava a bens finais: CPUs, GPUs, memórias e componentes são capital produtivo utilizado por data centers, empresas de tecnologia, produtoras audiovisuais e serviços digitais. Ao encarecê-los, a política elevaria os custos ao longo da cadeia e reduziria o incentivo à incorporação de tecnologia, justamente quando o discurso oficial fala em digitalização. O Brasil já é pouco integrado às cadeias globais de valor. Economias que avançaram na cadeia global facilitaram o acesso a insumos tecnológicos, o que ampliou a produtividade. Logo, aumentar as tarifas desses insumos vai na direção oposta.

Dix-Carneiro, Goldberg, Meghir e Ulyssea (2026) calibraram um modelo para o Brasil. Estimaram que uma redução de 33% nos custos de comércio geraria um ganho de renda real de 24% por meio da realocação de capital e trabalho para setores mais produtivos. Ou seja, menos barreiras permitem que recursos migrem para onde agregam mais valor. O Brasil já tentou o caminho oposto por décadas: protegeu setores com tarifas difusas sob o argumento de fortalecer a indústria nacional. O resultado foi baixa integração externa, produtividade estagnada e poucas empresas exportadoras competitivas.

Seja qual for o objetivo declarado -aumentar a competitividade da indústria nacional, tornar o Brasil mais integrado ou arrecadar-, esse não é o caminho. Na prática, a medida tornaria produtos mais caros para quem já ganha pouco e força escolhas que não deveriam existir. Uma família que precisa de um computador para o filho estudar ou trabalhar teria de pagar algumas centenas de reais a mais ou abrir mão da compra e ficar com um equipamento defasado. Uma empresa pequena de tecnologia que depende de componentes importados para prestar serviços teria de escolher entre repassar o custo ao cliente, perder margem ou simplesmente não expandir. Tudo isso em troca de proteger empresas que não conseguem competir sem barreira.

O que resta do discurso contraditório do governo são pessoas mais pobres, empresas menos competitivas e um país que continua a apostar na proteção em vez da produtividade.

Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/deborah-bizarria/2026/02/o-aumento-das-tarifas-de-importacao-sobre-eletronicos-empobrece-o-brasileiro.shtml