Interesse por uma arquitetura contemporânea aumenta na incorporação, mas ir além de projetos de alto padrão ainda é desafio
Por Ana Luiza Tieghi - De São Paulo
A chancela de um escritório de arquitetura de prestígio ajuda a destacar o produto imobiliário, o que vem a calhar em um mercado concorrido para os lançamentos de alto padrão. Para entrar nos projetos, no entanto, esses arquitetos exigem ir além de ter o nome no empreendimento.
Thiago Bernardes, que já assinou com seu escritório Bernardes Arquitetura projetos para empresas como Idea!Zarvos, Toca55, CFL, Laguna, Mozak e Bait, conta que demorou para começar a fazer prédios para incorporação imobiliária, porque os trabalhos que apareciam eram apenas para fazer a fachada. "Nunca topamos fazer isso, nosso projeto vai da planta, a fachada é consequência", afirma.
Ele esperou até que aparecessem incorporadores que aceitassem incluir seu escritório em todas as fases da concepção do prédio, e diz que isso é um ganho também para o construtor. Em uma planta pensada por ele, um espaço desnecessário de circulação na entrada dos quartos foi removido, doando metragem para o restante do imóvel.
Marcio Kogan, que fez projetos para RFM, SDI, Stan, Vitacon, Liv Inc e Idea!Zarvos, entre outras, também sentiu um aumento da procura por seus projetos na última década, o que credita a uma mudança - na verdade, uma recuperação - da visão do setor imobiliário sobre o papel da boa arquitetura. Em bairros como Higienópolis, em São Paulo, é possível ver que, dos anos 1940 até o meio dos 1960, havia uma "intenção de fazer projetos interessantes", afirma. "Depois disso, e na minha opinião tem relação com o início do regime militar, que termina com esse sonho de Brasil, começa a ter só porcaria", analisa.
Para ele, há "dois ou três" projetos interessantes em São Paulo após aquele período e até o começo dos anos 2000, quando a busca por uma arquitetura contemporânea ressurgiu e deu espaço para ideias que iam além do onipresente estilo neoclássico, e encontraram um público interessado.
"Sempre acreditei que a arquitetura contemporânea fosse vender, numa época em que não era nisso que o mercado acreditava", afirma o arquiteto Isay Weinfeld, que já projetou para empresas como Idea!Zarvos, MagikJC, Kopstein, Liv Inc e Toca55. Ele também considera que entrou tardiamente na incorporação, por só encontrar, até então, propostas para repetir o passado.
Nunca topamos fazer isso [apenas a fachada], nosso projeto vai da planta, a fachada é consequência".
- Thiago Bernardes
Os arquitetos consultados pelo Valor citam a incorporadora Idea!Zarvos como uma precursora desse movimento, que depois se espalhou para outras empresas. Otávio Zarvos, fundador da companhia, conta que sempre buscou para seus projetos arquitetos que tivessem uma "reflexão muito grande" sobre as escolhas que adotam, mesmo que ainda não tivessem experiência prática com incorporadoras. Nisso, ajudou a firmar o nome de iniciantes e inseriu na lógica da incorporação profissionais já de peso, mas que se dedicavam a outros projetos, como casas.
O que não quer dizer que seja uma relação fácil. Alguns dos prédios cujos resultados mais o surpreenderam - ele cita o comercial Corujas, do escritório FGMF, e os residenciais Oito, de Weinfeld, e Ourânia, do Studio MK27, de Kogan - também "deram muito trabalho", conta.
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O arquiteto Thiago Bernardes, da Bernardes Arquitetura: planta inteligente proporciona até economia ao incorporador - Foto: Carol Carquejeiro/Valor
Há um dilema de responsabilidade sobre o empreendimento que limita a autonomia do arquiteto, explica Zarvos. "Ela é limitada porque as responsabilidades que o arquiteto assume também são", diz. "As responsabilidades técnicas, no Brasil, não são dele, acabam sendo nossas".
São diversas idas e vindas, entre as equipes do escritório e da incorporadora, para ajustar a ideia inicial ao que é possível dentro do "tripé de desafios", como Zarvos define as questões de custo, de legislação e de mercado.
A Porte Engenharia, que atua principalmente na zona leste de São Paulo, não tem o estilo contemporâneo, mas também busca escritórios de arquitetura para assinar suas principais obras, como o Aflalo/Gasperini, que projetou o complexo Urman, em construção.
Igor Melro, diretor comercial da companhia, conta que há um desafio em conseguir ter projetos que sejam diferentes do que é feito no mercado, mas que sigam vendáveis. Características mais ousadas, que a empresa crê que serão positivas em alguns anos, podem ser uma barreira para as vendas no presente. "Você tem que se colocar no agora, senão não fecha o balanço, mas aí a chance de fazer algo ruim para o futuro cresce", diz.
A própria legislação urbanística é uma barreira. Kogan analisa que os empreendimentos atuais são parecidos, mesmo quando pensados por arquitetos autorais, porque não há como fugir de certas características. "Todo prédio agora é uma caixa de vidro com jardineira, porque a lei te obriga a fazer isso", afirma. Não é realmente obrigatório, mas o fato de a área da varanda, se entregue aberta, não ser computada no potencial do terreno, faz com que as "varandas gourmet" estejam em todo canto.
"É um terraço que ninguém sabe se é para deixar aberto ou para fechar", diz, o que limita as possibilidades da arquitetura, na sua visão. "Não deveria ter essa possibilidade. Ou é terraço ou não é".
Fugir desse modelo é difícil porque o valor alto dos terrenos, principalmente em São Paulo, faz com que tudo nas incorporações tenha que ser "levado às últimas consequências de rentabilidade", afirma Kogan.
Mas nada irrita tanto os arquitetos consultados quanto as modas do setor imobiliário. Passado o estilo neoclássico, Weinfeld conta que estava em voga dizer que todo prédio era um "ícone" do design. Agora é a vez dos projetos de arquitetura "atemporal". "É outra bobagem, é atemporal porque não é nada", diz.
Também é o momento dos edifícios assinados por grifes, de escritórios de design de carros a marcas de moda e decoração. "É uma questão de ordem psicológica, mais do que outra coisa", diz Weinfeld, que considera o conceito "ridículo". "Um horror" e "na contramão do que a gente acredita", diz Bernardes, para quem isso é algo que as empresas encontraram para conseguir um "carimbo" no projeto, sem precisar passar por todas as etapas que os "arquitetos sérios" exigem.
Projetos desse tipo costumam ter as marcas fortemente alardeadas no material de marketing, mas sua presença real é tímida, como na seleção dos móveis das áreas comuns.
Ao mesmo tempo em que a moda da vez segue forte, os arquitetos afirmam que a demanda vinda de fora de São Paulo por projetos autorais para a incorporação imobiliária está crescendo. Todos já assinaram, estão preparando ou foram cotados para ter prédios em outras cidades, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Brasília, Fortaleza e Goiânia, além de empreendimentos fora do país.
Até nos arredores de Balneário Camboriú (SC), que ganhou fama por quebrar sucessivamente a barreira do prédio mais alto do país, cresce a procura por projetos contemporâneos, afirma Kogan, citando um prédio da incorporadora Blue Heaven, em Itajaí, feito com madeira, assinado por Triptyque e Architects Office.
Para esses profissionais, que já estão com as carreiras consolidadas, um novo prédio precisa acrescentar algo às cidades. Até porque a incorporação imobiliária deixa marcas profundas nos bairros, seja pela substituição de casas e comércios, que altera a vida local, seja pela durabilidade das construções. "Se fizer mal feito, vira uma cicatriz, uma verruga na cidade", afirma Bernardes.
Uma vez que a arquitetura bem pensada já está vencendo as barreiras geográficas na incorporação, resta alcançar outros padrões de renda. Arquitetos e incorporadoras consultados acreditam ser possível projetar prédios populares, como para o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), mas só Weinfeld já fez um empreendimento do tipo, com estúdios e unidades de um e dois quartos, de 24 a 48 m², para a incorporadora MagikJC, no Centro de São Paulo. Seu escritório trabalha, agora, em um projeto popular no Rio. "É possível fazer um prédio interessante, mesmo sem gastar nada", diz.
Para Bernardes, falta vontade política e das empresas para buscar projetos com mais qualidade para o público de baixa renda, que não sirvam, nas palavras de Zarvos, apenas para "abrigar da chuva". "Fazem uma coisa mal construída, é inacreditável", critica. Ele defende o uso de materiais alternativos, como a madeira, para viabilizar projetos melhores.
Kogan, que começou sua carreira pesquisando habitação popular, avalia que "não se aprendeu", no Brasil, a dar às classes mais baixas algo além do básico. Ele ainda quer fazer seu próprio projeto do tipo. "Adoraria fazer, mas o destino me levou para o lado oposto".
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O arquiteto Marrcio Kogan, do Studio MK27, ainda deseja fazer um projeto de incorporação para o mercado popular - Foto: Divulgação
Valor
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